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Quando a conheci nunca tinha ouvido falar de Spina Bífida.

Ela foi-me apresentando, um a um, cada amigo com a patologia. Primeiro o Luis, depois o Filipe, a Rita, o Sanona, a Xana, a Sandra e por aí fora.  Não percebi, nem de longe nem de perto, que aquele era o seu clã, logo ela, que nunca teve perfil para pertencer a nenhum clã, tão única e diferente, tão diferenciada e especial. 

Apaixonei-me por ela ao primeiro olhar, pela sua confiança, o seu sentido de humor, o seu destemor.  Às vezes, já estávamos demasiado apaixonados, notava-a preocupada, circunspecta, como se algo a consumisse. Logo ela, que agarrava pelos cornos qualquer problema, que sabia a forma exacta de resolver qualquer situação, tão única e diferente, tão diferenciada e especial. 

O andar nunca a denunciou, era trapalhona e despachada, intrépida e desconcertada, fazia parte do seu charme. Nada no seu corpo se assemelhava com as canadianas da Rita ou a cadeira de rodas da Catarina, não havia pistas, só aqueles amigos, demasiado cúmplices e diferentes, diferenciados e especiais. Como ela.

Um dia disse-me "Tenho que te contar uma coisa!" e ficou calada, preocupada, logo ela que nunca ficava sem palavras, que nunca se deixava calar pelas preocupações. E depois começou a fazer outra coisa qualquer e eu achei que se tinha esquecido de me contar, que deveria ser uma confidência sem importância, um detalhe tonto. Deveria ter desconfiado, nada nela é tonto nem insignificante, logo nela que é tão única e diferente, tão diferenciada e especial.  

Um dia suspirou alto e eu ouvi e parei o que estava a fazer e olhei-a com atenção. chamou-me e disse-me: "Sabes o Luis, o Filipe, a Rita, o Sanona, a Xana e a Sandra?" Sei. "Tenho Spina Bífida como eles." E ficou a olhar para mim, muito séria, logo ela que nunca fica séria, sempre a rir de uma forma só dela, com um carisma que não se repete em mais ninguém, logo ela tão única e diferente, tão diferenciada e especial. 

E eu suspirei de alívio como se ela me dissesse que o sol era amarelo e o que me importasse realmente era sentir o calor na minha pele, a vitamina nos meus poros, a fotossíntese do meu corpo. O sol era amarelo, tanto me fazia, que ela tivesse Spina Bífida, uma incapacidade, um atestado multi-usos, especificidades orgânicas e diferenças biológicas, que fosse deficiente, era-me igual, amava-a tanto, ainda mais, talvez não porque mais era impossível, era ela o meu amor para sempre, ela sendo ela com tudo o que fazia parte dela, tão única e diferente, diferenciada e especial. 

E depois da Spina Bífida fazer parte da minha vida, por osmose, nem foi por simpatia mas por uma aborrecida naturalidade começámos a fazer coisas juntos. Fundámos de forma voluntária um Gabinete de Apoio Psicossocial, dinamizámos grupos de auto-ajuda, demos formação parental, fomos monitores anos a fio em colónias de férias que nos roubavam metade das férias, desenhámos e implementámos projectos, participámos em conferências e congressos, levámos a cabo workshops e quando dei por mim, a causa que eu tinha adoptado não era filha adoptiva mas uma filha biológica, parte de mim. 

Um dia eles, o Luis, o Filipe, a Rita e ela também, a já minha mulher Liliana perguntaram-se se não queria presidir à ASBIHP- a Associação que foi palco de tantos anos de voluntariado, de tantas amizades firmadas e cimentadas, de tantas histórias no plural. Perguntaram-me em jeito de desafio e eu fiquei honrado por, 16 anos depois de ter pisado a Associação pela primeira vez, sem saber o que era a Spina Bífida, sem sonhar com o que me esperava, eles quererem que fosse eu a representá-los, a conduzir o barco, predispondo-se todos a remar comigo ou eu com eles, antes assim. 

Desde Janeiro de 2015 que sou Presidente da Direcção da ASBIHP, eu, um rapaz dos Açores que nem pessoas com deficiência tinha na ilha. PResidir a ASBIHP é antes de ser uma honra uma enorme responsabilidade, a responsabilidade de dignificar cada um deles, o Luis, o Filipe, a Rita, o Sanona e todos os outros- dezenas de outros, centenas atrevo-me a dizer- e de defender os seus direitos, lutar pelos seu deveres, mostrar as suas competências e celebrar as suas vitórias individuais e do colectivo onde já me insiro. 

Mas, acima de tudo, é uma prova de amor. Porque também amo a Spina Bífida da minha mulher porque ela ajudou a torná-la assim: única e diferente. Diferenciada e terrivelmente especial. 

 Perfeita com todas as suas imperfeições. 

 

 

Tudo sobre Spina Bífida em www.asbihp.pt 

Facebook da ASBIHP aqui

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"1- passamos o máximo de tempo possível na rua. agora que já vão à escola de manhã já tenho mais tempo para fazer algumas coisas em casa, mas ainda passo a hora da sesta da anita na rua. dormir na rua faz bem. à tarde vamos os 4 sempre para o parque ou para o jardim. brincar na rua, no verão ou no inverno, é sempre uma prioridade. o parque é como uma extensão da nossa casa.

 

2- não fazemos muitos programas familiares. o pai trabalha 6 dias por semana das 9h às 2h da manhã, por isso, quando ele está em casa, fazer legos com o pai já é um programa. preferimos cansá-los menos e aproveitá-los mais. e quando o pai está significa que eu também consigo ter mais tempo para cada um e posso fazer um projecto com a maria ou brincar só com o miguel. nos outros dias tenho de fazer tudo ao mesmo tempo. por isso quando fazemos qualquer coisa simples, como irmos todos a um café comer um pastel de nata e beber um chá, para eles já é um programa espectacular.

 

3- não temos tablet e não temos jogos no nosso telemóvel. deixo-os ver televisão, mas não se chateiam nos dias em que ela não "funciona". normalmente desligo-a na ficha quando os sinto mais agitados, uma semana sem televisão faz maravilhas no comportamento do migas. no meu telemóvel só deixo a maria pesquisar projectos pré-escolares no pinterest, ela guarda o que quer fazer e eu arranjo-lhe o material necessário. ao migas mostro imagens no google quando me faz algumas perguntas, no outro dia queria saber o que era um capivara e eu mostrei-lhe.

 

4- todos ajudam a arrumar. peço-lhes para me ajudarem em várias tarefas. uma vez por dia, normalmente escolho o final da tarde, eles já sabem que têm de levar todos os brinquedos que espalharam pela casa e ir arrumar tudo no quarto. estar sempre a pedir-lhes para não deixarem os brinquedos espalhados e ir arrumar era muito cansativo, optei por fazer isso só uma vez por dia. também faço uma montanha de cuecas e meias e juntos dobramos tudo. a maria lava as taças do tobias, o migas gosta de pôr a mesa e arrumar as compras.

 

5- respeitamos as vontades [sensatas] de cada um. não se usa muito o "fazes assim porque eu é que mando". não obrigo ninguém a comer se não tem fome, nem a dormir a sesta se não tem sono, assim como eles também não me obrigam a mim. ainda querem usar chucha e usam. a opinião deles é sempre ouvida e valorizada, mesmo em coisas pequenas do dia-a-dia. as decisões funcionam muitas vezes por votação, e o voto deles vale o mesmo que o meu ou o do pai. já ouvi muitas vezes um " então mas eles é que sabem?" e sim, em algumas situações eles podem tomar decisões e para nós funciona."

 

Vera- nossa amiga e autora do blog "Eu, ele, a Maria, o Miguel e a Ana"

 

Conheçam ainda a mais ternurenta página de facebook da família aqui

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És especial quando acordas de manhã e me olhas com o espanto de quem me descobre todos os dias. És especial quando páras para observar cada flor, para apanhar cada pedrinha, para fazeres de cada ramo varinhas de condão. És especial quando dialogas contigo mesma, quando sais de ti e te tranformas numa vendedora e numa freguesa, numa princesa e num dragão, numa mocinha e num vilão, numa menina real e nas meninas que habitam todas na tua imaginação. És especial quando te aninhas no meu colo para adormeceres. És especial quando de saia rodada vestida giras sob o teu próprio corpo num movimento egocêntrico de rotação. 

És especial quando agarras em cerejas e as transformas em brincos, quando ficas com a boca suja de morangos no Verão, quando aqueces as mãos a segurar um cartucho de castanhas quentinhas no Outono e quando sorris em dias de chuva porque há poucas coisas mais divertidas que calçar as botas de borracha e pular em poças. És especial porque falas muito, perguntas tudo, concluis tudo o resto e és a pessoa mais perspicaz que conheço. És especial quando acreditas nos poderes curativos dos meus beijinhos nos teus dói-dóis. És especial porque és segura e confiante, não gostas que te manipulem nem que condicionem, porque sabes que ser livre é uma coisa que vem de dentro para fora, És especial quando corres para mim quando te apanho no final dos dias de semana e quando andas pé sobre pé para me acordares com beijos aos sábados de manhã. 

És especial quando contas estrelas nos sinais das minhas costas e ao passares-lhes cremes fazes grafismos. És especial quando achas que o quarto crescente resulta de uma mordidela de um rato na lua. És especial porque gostas de livros e de música jazz à noite. És especial porque ris de forma selecta e tens um humor precocemente sarcástico. És especial quando eu falo das saudades que tenho [todos os dias] dos meus avós e me respondes "mas agora estou cá eu", não porque os substituas mas porque agora estás, efectivamente, cá e não deixas nunca o meu coração ficar com o bolor da saudade e o caruncho da dor. És especial porque foste tu que nasceste de mim, tu e só tu, e não poderia ter sido outra criança diferente porque o meu coração é teu e o teu é meu e seremos uma da outra para sempre. Mesmo quando eu já não estiver por cá. 

 Liliana 

(Hoje o texto é da mãe.)

 

[Desafio: Três parágrafos de escrita escorrida sobre situações concretas em que sentimos o quanto especial são os nossos filhos. Repetir por cada filho que temos. Lermos-lhes em voz alta um dia à noite antes de dormir. Pedir-lhes, no fim, que enumerem 5 coisas pelas quais se sentem especiais. Registar ops 5 aspectos por eles seleccionados e descritos. ]

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Histórias de Papelão é a peça infantil dos Improvio Armandi, grupo de comédia de improviso, em que os actores criam "em directo" uma estória, onde qualquer uma das personagens do universo infantil pode aparecer e as crianças decidem o que vai acontecer a seguir.

Este é o mote dos Improvio Armandi para o espectáculo Histórias de Papelão, no qual os actores (André Sobral, Hugo Rosa , João Cruz e Ricardo Karitsis) através da interacção com o público improvisam uma estória que tanto pode ser de cavaleiros e princesas, como de piratas, bruxas, astronautas e monstros assustadores, de acordo com o que for escolhido em vários pequenos "sorteios" ao longo do espectáculo de onde sairão as personagens ou locais seguintes.

O espectáculo tem a duração de 45/50 minutos, ao longo dos quais será improvisada uma história do início ao fim e as crianças terão voz activa no seu desenrolar e desfecho.

Reservas: armandi.improvio@gmail.com
 

As expectativas estão altas e a peça parece muito gira: metade do que se passa é imaginado, porque por ser tudo de improviso, não há cenários e os actores têm que criar o espaço na nossa imaginação. Gosto muito, muito, da ideia! 

Este fim-de-semana lá estaremos!

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Imagem de Snezhana Soosh 

 

1- Não ter a TV ligada às horas das refeições. Estarmos todos juntos à mesa, no final dos dias individuais de cada um, é o momento de partilha, comunhão e sentido de unidade que precisamos com família. É altura de partilharmos os nossos dias, de falarmos sobre o que nos apetecer, de estarmos juntos sem interrupções. 

 

2- Hora de dormir prepara-se meia hora antes de se ir para a cama. Há todo um ritual de relaxamento que antecede a hora de dormir e rotinas securizantes que preparam as crianças para o momento de se irem deitar. Escolher dois livros (um escolhe ele, outro o pai que a acompanha na hora de deitar nessa noite), duas músicas (que se põe no youtube no telemóvel depois das histórias mas sem se ver os videoclips, apenas escutando-as), baixar as luzes, contar as histórias com voz calma e dolente, ouvir as músicas, desligar as luzes e ligar a de presença que projecta estrelas no tecto do quarto, aconchegar a roupa da cama da filha e da boneca preferida que dorme com ela, dizer o código para se deitar (cada família deveria ter um. Aqui em casa é "uma noite descansada: dorme bem. Amo-te!") e dar um beijo, Demora tempo, mas vale cada minuto despendido. 

 

3- Banho tem direito a tempo para todo um ritual de spa. Cá em casa tem que ser à noite, enquanto um dos pais faz o jantar (bem sei que temos a vida facilitada por termos apenas uma filha única mas caberá a cada família encontrar a estratégia que melhor se adeque à sua). Depois do banho há massagem com creme hidratante, há escolha do pijama que combina com o humor do dia, há escovagem de cabelo e secador sem fazer muito barulho nem estar muito quente, há cócegas e beijinhos. O banho está ancorado a um momento do dia feliz e de mimo. 

 

4- Sábado é dia de pequeno almoço tardio de panquecas. Há uma excitação boa com o aproximar-se do fim-de-semana: porque há tempo de manhã, porque há pequeno almoço de robe, porque há uma das iguarias preferidas dela e porque, especialmente, não há pressa. Ao sábado podemos ser molengões e gulosos e sabemos que toda a correria da semana será compensado com o dia das panquecas. Porque merecemos. 

 

5- Viagens (curtas) de carro deixaram de ter rádio ligado nem há autorização para se ver tablets ou aparelhos digitais. Viagens curtas de carro têm lengalengas, jogos de rimas, histórias de improviso a três, músicas novas partilhadas por ela ou antigas recordadas por nós. Viagens curtas têm mnemónicas, lengalengas, adivinhas. Viagens curtas terão, para sempre, memórias. 

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Como técnico que trabalha há mais de uma década com crianças e com toda a racionalidade que a parentalidade não me pode toldar, assisti à polémica reportagem da TVI e tirei algumas conclusões. 

Não me limitei a isso e sei que sou privilegiado por conhecer técnicos de serviço social que trabalham no Reino Unido e curioso o suficiente para não me satisfazer com uma reportagem que não é imparcial e isenta e que sou mostrou um lado da história. 

Tentei, ainda, pesquisar e perceber o enquadramento legal desta situação. Concluí alguns destes pontos:

1- O sistema social do Reino Unido aposta na prevenção. Ao contrário do sistema português que parte do pressuposto que está tudo bem com as famílias e só actua reactivamente, o sistema inglês prefere antecipar riscos e actuar em caso de possibilidade de maus tratos que ainda nem ocorrem mas que pode haver a hipótese, mesmo que remota, de ocorrerem. Não querem correr riscos uma vez que têm um histórico de maus tratos na infância por parte de cuidadores formais e informais que não querem repetir, incorrendo nos mesmos erros. Pode-se, especialmente se analisarmos à luz do que acontece na realidade portuguesa, pecar por excesso de zelo mas acreditam que é mais eficaz desta forma e que a preservação da vida de uma criança é um bem maior. 

 

 

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Quando, no âmbito de um projecto em que colaboro, houve necessidade de planear um fim-de-semana para pessoas com diversidade funcional com o objectivo de abordar os medos, os receios, as necessidades de superação das limitações e a tomada de decisões que acarretam risco, alguém sugeriu "e se arriscássemos nós numa proposta de desportos radicais?". 

Começámos, no seio da equipa de trabalho*, a colocar uma série de questões, dúvidas e ansiedades, de ter medo de arriscar numa ideia tão ousada, até que respirámos fundo, tomámos uma boa dose de coragem e decidimos pesquisar quem na área fosse audaz o suficiente para dar corpo e materializar a nossa ideia. 

Foi o Pedro Loureiro da Experience Sport o único louco corajoso a dar-nos ouvidos e a querer avançar com um dia de team building e desportos radicais... adaptados!  

 

 

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Pedagogia televisiva para adultos

por Rui Brasil, em 04.10.16

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Não gostando, particularmente, de desporto nem sendo um ferveroso adepto de futebol. existe, todavia, uma actividade estereotipadamente masculina de que não prescindo- o zapping. 

Numa destas noites em que o comando andou num virote, naquela actividade fabulosa que é estar a olhar para o écran da televisão sem estar verdadeiramente a ver nada, parei num dos episódios da segunda série "Shark Tank Portugal". Espectador e assumido fã da série original, onde os  investidores são verdadeiros "sharks" e apesar de haver um vilão (para quem assiste, toda a gente sabe de que falo de Kevin O'Leary) gosto particularmente das competências que denoto nos investidores: capacidade de escuta activa, competências ao nível da comunicação positiva, capacidade de formular questões sem formular juízos de valor nem assumir um estilo agressivo e, sobretudo, empatia. 

O que assisti, boquiaberto, na edição portuguesa foi um chorrilho de reacções mal educadas, arrogantes e prepotentes a vários projectos, muitos deles, provenientes de jovens que arriscam e se expõem num programa de televisão defendendo uma ideia que consideram válida e na qual investiram o seu tempo, dinheiro e energia. Não que seja acérrimo defensor  de que o "empreendedorismo é que é" e que "basta acreditar e tudo se consegue!" e todo aquele conjunto de empreendo-clichés, muitas vezes desfasados da realidade, muitas vezes apenas assentes em sonhos que não têm potencial de concretização, algumas vezes delírios dos seus criadores sem aferirem as necessidades dos mercados e dos seus público-alvo. Tudo isto acontece, no dia-a-dia, e acredito plenamente que estes investidores ouvem, diariamente, ideias "peregrinas" por dá cá aquela palha e que os níveis de tolerância a alguns delírios seja baixo. Acredito.

Mas também acredito que quem não tem capacidade de se colocar no lugar do outro, capacidade  de recuar e se lembrar que já esteve em estádios anteriores, em situações análogas, com sonhos impossíveis ou difíceis de concretizar, quem não se lembra da forma mais simpática com que ouviu um "não", não pode ser uma pessoa de sucesso. Pode ser um profissional bem sucedido, com EBITDAs elevados, prémios de carreira, iates e aviões comprados, viagens ao espaço realizadas e tudo o resto mas não será, com toda a certeza, uma pessoa gentil, humana e empática. E são essas as características pessoais, na minha perspectiva, que fazem de um ser humano um ser digno desse nome.

 

Também não pensem que tenho embirração com o mundo do empreendedorismo, que se enganam. Já afirmei, ali atrás, que gosto imenso do conceito do programa original, das ideias inusitadas que aparecem, da coragem e audácia de algumas pessoas em arriscar e investir as suas energias em projectos pouco óbvios, da capacidade de anteciparem e diagnosticarem necessidades aos consumidores, de darem resposta aos seus problemas do dia-a-dia.  Acontece na edição do "Shark tank" português como acontece na do "Masterchef Portugal" c

 

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Não sei onde li isto mas retive-o na memória para sempre: "A auto-estima é o sistema imunológico do cérebro". Acrescento: "A auto-estima é o sistema imunológico do cérebro e do coração".

Ensinar o seu filho e/ou acompanhá-lo num processo de auto-apreciação e amor próprio é um pilar essencial para a construção e solidificação da sua auto-estima. 

Neste processo é importante que a criança comece, desde cedo, a conhecer-se, a identificar os seus pontos fortes, as suas características positivas assim como a identificar as suas oportunidades de melhoria e as suas características que dificultam o seu dia-a-dia na sua relação consigo mesmos e com os outros. Assim, conhecer-se a si mesmo é a primeira premissa para o alcance de uma boa aute-estima. 

Cabe aos pais ajudar os filhos neste processo, identificando, dando relevo e verbalizando as características positivas ("Partilhaste a tua fatia de bolo com a mana: que generoso que és!" ou "Queres ajudar-me nas tarefas de casa? Oh, és tão prestável!" ou ainda "Gostas mesmo de coisas que te façam rir: és tão divertida! ) e identificando e recentrando as características com oportunidade de melhoria ("Esqueceste-te de fazer as tuas tarefas e foste logo brincar. Para a próxima podias tentar ser mais responsável." ou " O outro menino estava aflito e tu seguiste em frente- Se fosse contigo gostavas que alguém tivesse parado para te ajudar, Para a próxima podes tentar oferecer a tua ajuda, que dizes?). 

É o amor próprio que nos dá a confiança de sabermos quem somos, para onde queremos ir, a dizer que não quando é isso que queremos ou precisamos, a não nos compararmos com os outros mas connosco mesmo e com as pessoas que nos queremos tornar, que nos permite lidar com a frustração e admitir falhar, saber reconhecer e canalizar as nossas forças, saber identificar e trabalhar nas nossas fraquezas, não fazer depender os nossos comportamentos de validação externa ou necessidade de ser aceite, perdoarmo-nos sempre que falhamos ou erramos, comemorar sem falsas modéstias e congratularmo-nos com as nossas próprias vitórias, aceitar que nem toda a gente tem que gostar de nós e saber que, no fim de contas, somos mais que as nossas atitudes e comportamentos isolados e, no final,  que merecemos coisas boas. 

As crianças têm que gostar de si próprias antes de gostarem de qualquer outra pessoa. É o amor-próprio que nos dá segurança para sabermos reconhecer e expressar emoções, sentirmos empatia, termos disponibilidade para ter e dar atenção ao outro e nos relacionarmos com o outro.

 As crianças têm que gostar de si próprias sem esperarem que os outros o façam no seu lugar mas como reforço.  O nosso bem-estar não deve depender do amor dos outros. Ninguém nos deve amar para nos sentirmos bem. O amor dos outros deve apenas ajudar-nos a sentirmo-nos (ainda) melhores. 

Sempre que um filho faz algo meritório cabe aos pais dar reforço positivo, não indiscriminado e generalista, mas direccionado ao acto específico de forma a ancorar o elogio à acção. As crianças necessitam de reforçar, ao longo da sua infância, as noções de bem e de mal, o que são comportamentos positivos e desejáveis em oposição ao que são comportamentos negativos e inaceitáveis, precisam que os seus adultos de referência não lhe digam apenas que é "generoso" mas, antes, que lhe exemplifiquem no dia-a-dia acções próprias que demonstrem a sua generosidade. Precisam que os seus adultos de referência não os cataloguem ou rotulem como "bons ou maus" mas que os ajudem as identificar as características positivas ou negativas das suas acções e reacções. Que reforcem as suas boas acções e que os ajudem a reorientar as suas acções menos positivas, que lhes dêem oportunidades para alterar comportamentos, para errar, para experimentar fazer diferente e que nesse caminho nao duvidem, por um segundo, que aconteça o que acontecer nada beliscará o amor que os pais sentem por ele. 

Precisam que após cada vitória o adulto lhe diga "Boa! Tu mereces coisas boas depois de tanto esforço, trabalho, dedicação ou garra"" e que após cada derrota o adulto lhe ajude a secar as lágrimas e a pensar em conjunto o que se pode fazer diferente, relembrando-o que "Hoje foi mau mas para a próxima será melhor! Afinal, tu mereces coisas boas!"

 As crianças precisam de crescer com a confiança de que merecem coisas boas. Sempre. Independentemente do caminho que percorrerem, dos erros que cometerem, das falhas que incorrerem, dos azares e situações externas e circunstancias que lhes são alheias mas que lhes possam acontecer. 

"Tu mereces coisas boas!" é uma espécie de mantra de hoje e de sempre que deve ser usado como nos casamentos: na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, nas vitórias e nas adversidades, todos os dias das suas vidas. 

 

 

[Desafio: Regra geral os filhos oferecem-nos, amiúde, flores. Apanham-nas, pedem aos pais que as comprem em dias especiais mas oferecem-nos. E que tal invertermos a ordem das coisas? Desafio-vos a pararem no vosso caminho e apanharem um raminho de flores para os vossos filhos. Quando chegarem a casa ponham-nas dentro de uma pequena chávena bonita em cima das respectivas mesas de cabeceira. Quando eles se depararem com a supresa respondam-lhes que é para eles. Porquê? Porque eles merecem coisas boas. ]

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Os mais pequenos têm dificuldades em verbalizar e os mais crescidos não têm paciência para o descrever. "Como correu o dia?" é, provavelmente, a pergunta mais non grata para filhos. No entanto, é importante que os pais se mantenham a par do dia-a-dia dos seus filhos, dos pontos altos e baixos, dos principais desafios e oportunidades com que se deparam, dos amigos que os acoompanham e dos progressos que fazem. Esta necessidade de estar atento para reforçar comportamentos, reorientar situações, antecipar necessidades, actuar em caso de emergência e não perpetuar situações negativas é essencial para que os pais sintam segurança e confiança e não apenas, como é interpretado pelos filhos mais velhos, para deterem algum controlo. 

Nesta coisa da comunicação com os nosso filhos cometemos, face a algumas crianças, um erro fundamental: fazer perguntas abertas demasiado vagas e abstractas ("como correu o teu dia?") que obrigam a criança a ter que estruturar o pensamento, organizar ideias, usar o método descritivo e formular todo o discurso num processo trabalhoso e moroso, para o qual a maioria não tem paciência e não vê grandes vantagens em percorrer. 

Assim, sugerimos algumas técnicas:

1. Fazer uma pergunta de cada vez mas de forma suave e sem parecer que está a fazer um interrogatório ou uma entrevista ("Qual foi a melhor parte teu dia?" "Brincar à apanhada no parque com a Sara. "Ah, que giro! E alguém se juntou a ti e à Sara?")

 

2. Utilizar uma linguagem simples e clara ("Com quem brincaste hoje na escola?" Brincaram ao quê?"

 

3. Utilizar "perguntas abertas" de forma a obter o máximo de informação ou percepcionar a forma como a criança aborda um assunto ("Qual foi a melhor parte do teu dia?")

 

4. Utilizar "perguntas fechadas" para obter informações específicas ou confirmar aspectos particulares da questão ("Hoje ao almoço comeste peixe ou carne?" ou "Hoje de manhã leram uma história ou cantaram uma canção?")

 

5. Evitar perguntas ambíguas ou que possam ter interpretações incorrectas ("Falei com a tua educadora. Portaste-te bem hoje na escola?" levanta algumas questões e ansiedade aos filhos. "O que terá dito a educadora?" "O meu comportamento pareceu-me correcto mas será que na perspectiva dela me portei bem?")

 

6. Evitar que as perguntas contenham juízos ou críticas, passíveis de desencadear defesa ou contestação ("Já sei que hoje não te portaste bem na escola: queres falar-me acerca disso?")

 

7.  Evitar que as perguntas levem a criança a sentir-se alvo de manipulação ("Passei lá pela tua escola e vi-te- Queres contar-me o que se passou durante a manhã ?")

 

Eis algumas sugestões de formas de contornar a pergunta sacramental, substituindo-a por outras formas de abordagem menos evasivas:

 

 

 

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