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"Olá boa tarde!

Parabéns pelo blog, está muito bom, com temas interessantes e com uma escrita fácil de entender. Venho colocar uma questão: o meu filho faz 6 anos em Novembro, logo pertence ao rol de alunos condicionais uma vez que só faz os 6 depois de 15 ou 30 de Setembro (não tenho bem presente a data limite), e assim sendo não tem entrada este ano na escola primária na nossa zona. O que será melhor? Adiar um ano a entrada na escola primária pública e frequentar a pré-primária mais um ano ou entrar numa escola privada para o primeiro ano? Desde já agradeço o seu esclarecimento sobre o que será melhor para as crianças. Obrigada. B.A."

 

A primeira resposta que tenho para esta questão é genuinamente inconclusiva: depende. "E depende do quê?"- perguntar-me-á a mãe. Depende muito mais de questões de foro emocional que da cognitivo, ou seja, não tem apenas que ver se o menino tem potencial cognitivo, se aprende bem ou não, se memoriza bem ou não, de tem ou não atenção, se reproduz, se assimila conhecimentos, se relaciona conceitos mas sim se está emocionalmente disponível e preparado para começar esta caminhada. 

 

Na minha óptica existe uma falácia ideológica que tem sido erradamente perpetuada pelos pais portugueses: uma criança inteligente é, necessariamente, uma criança boa aluna e uma criança boa aluna é, por suas vez, necessariamente uma criança que obtém resultados escolares elevados nas pautas da escola. 

 

Os pais preocupam-se que os filhos entrem na escola para poderem aprender as matérias, serem bons alunos, terem boas notas, serem os primeiros da sala, nunca reprovarem, poderem tirar um curso superior e terem sucesso profissional. Este paradigma foi iniciado pelos pais pós-revolução, que finalmente puderam ter acesso ao ensino superior mais democratizado e menos reservado às elites e que se convenceram que ser detentor de um curso superior era sinónimo de se arranjar um trabalho bem remunerado e, de preferência, para a vida, estável e com estatuto. No entanto, os tempos mudaram e o cenário da crise económica mostrou a fraude que esta convicção encerrava em si, deixando pais absolutamente destroçados pelo que consideram ter sido um investimento sem retorno na educação dos filhos e filhos frustrados porque cresceram com uma ideia que lhes venderam que nunca se chegou a concretizar. 

 

E agora requestionemo-nos: o que queremos para os nossos filhos? Que decorem matérias e as colem a cuspo no cérebro na véspera dos testes e tenham boas notas mas que no dia seguinte à avaliações não saibam uma linha do que decoraram ou que, de facto, retenham informação que consideram pertinente, tenham sentido crítico acerca dela e consigam projectar o conhecimento que apreenderam na resolução de problemas da sua vida real? Queremos que as crianças do primeiro ciclo saibam usar o transferidor na escola mas depois não consigam perceber a sua utilidade quando ajudam os pais a fazer medições nas paredes para pendurar prateleiras?  Que saibam ler de forma mecânica mas que depois não se interessem por nenhum livro que têm nas estantes? Que entrem na escola aos 5 anos, que tenham uma entrada precoce, mas que estejam sentados nas cadeiras cheios de vontade ainda se correr e de brincar, sem interesse pelo que têm que aprender, e não estejam emocionalmente felizes?

 

Neste contexto específico há que olhar para o meu filho. Ele tem maturidade emocional? A linguagem está desenvolvida? Há necessidade biológica de sesta? Consegue ficar sentado e atento durante períodos razoáveis de tempo? Só quer (ainda) brincadeira? Não tem interesse pelas questões de literacia? 

Ou pelo contrário, tem uma linguagem desenvolvida? Não tem necessidade de sesta? Gosta de actividades que impliquem estar em silêncio e concentrado durante algum tempo? Já procura, por iniciativa própria,  novos desafios como aprender letras, a escrever o próprio nome? "Pede" que o ensinem?

 

Nenhuma das situações privilegia uma criança face à outra. Aqui não há juízos de valor! Uma criança que aos 5 anos já demonstra vontade própria para aprender a ler não é um Einstein nem melhor/mais esperta/mais inteligente/mais brilhante que uma criança que, na mesma idade, tem é necessidade de correr, saltar e brincar. O inverso também não se verifica. Tem tudo que ver com características individuais e maturacionais de cada criança, como ser único que é. 

 

Alguns pedagogos do século passado defendiam que a criança deveria iniciar o seu percurso académico aquando da sua mudança de dentes, o que não deixa de ser uma abordagem empírica curiosa. 

 

Um estudo publicado pelos investigadores Thomas S. Dee e Hans Henrik Sievertsen, da Universidade de Stanford, chegou à conclusão que as crianças dinamarquesas que entram um ano mais tarde para o primeiro ciclo revelam menores índices de desconcentração e hiperactividade e, consequentemente, denunciam um maior auto-controlo. Sabe-se, através de vários estudos, que níveis mais elevados de autocontrolo na infância são preditores de maior sucesso nas várias estratégias de  resolução de problemas na idade adulta (pode ler mais sobre este estudo aqui).

 

Em suma, a resposta à sua questão está na sua sensibilidade quanto à maturidade do seu filho para dar esse passo. 

 

Duas notas finais:

 

1- Vamos retirar a carga negativa à expressão normalmente utilizada de "atrasar" a entrada na escola primária como se os colegas com admissão não condicional avançassem e as crianças com entrada condicional ficassem para trás. Não é verdade! Aqui não há retenções. Trata-se, fundamentalmente, de evitar que crianças de 5 anos sejam obrigadas a crescer e a acompanhar crianças de quase sete nos mesmos desafios de escolarização. Trata-se de respeitar o ritmo e as necessidades de faixa etária e de lhes responder de forma adequada a essas necessidades. A criança que fica mais um ano na pré-primária não fica desfavorecida em termos de competição com os colegas que não fizeram esse caminho. Na verdade, interessa é que a criança compita consigo própria, que se supere, que se torne melhor que no dia anterior e que tenha como referencial de sucesso o seu desenvolvimento pessoal e não a competição com os pares. 

 

2- Decida sem culpas nem tendo em conta pressões sociais. Se decidir que é melhor que o seu filho fique mais um ano na pré-primária pense nos pontos positivos: as crianças têm apenas 5/6 anos para poderem exclusivamente brincar e todo o resto da vida para serem alfabetizados, escolarizados e letrados. A educação não formal (brincar) é tão importante para o desenvolvimento emocional e cognitivo como a educação formal e absolutamente fulcral nos primeiros anos de vida. Se decidir que o melhor é que o seu filho ingresse numa escola de 1º ciclo privada foque-se que será o melhor para dar resposta às necessidades deste, respeitando o ritmo que identifica nele e acompanhando a sua motivação. O mais importante é respeitar não o tempo do calendário lectivo mas sim o tempo da criança. 

 

 

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