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Bullies e rufias

por Rui Brasil, em 04.01.16

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 Em todas as áreas da sociedade existem relações de poder, muitas vezes circunstanciais, que se estabelecem, seja entre pai e filho, patrão e trabalhador, professor e aluno. E a escola, tal como qualquer sistema social, reproduz na sua vivência a sociedade e as suas relações de poder.

Quando falamos de indisciplina na escola, lembramo-nos sempre da nossa experiência, dos nossos tempos de escola, em que havia sempre o grupo dos “rufias”, dos “dreads”: os que faltavam às aulas embora estivessem dentro do recinto escolar, que fumavam nas traseiras dos pavilhões, que tinham a fama de serem os mauzões.

No entanto, muitos deles eram os primeiros a defender algum aluno mais frágil ou a ajudar a professora, com uma perna partida, a carregar a pasta até ao carro estacionado no fim do dia de aulas. Estes são os "bons malandros" ou simplesmente, os rufias. Mas também existia um ou outro que era mesmo “mau”, o "já não há nada a fazer", o que batia nos alunos mais novos ou lhes roubava o dinheiro do almoço. Esse não é só rufia, é aquele a quem chamamos de bullie. E a fronteira entre os dois é ténue, mas existe.

O bullying (como atualmente apelidamos um conjunto de comportamentos violentos e socialmente desadequados) existe de duas formas: direta ou indireta. Reconhece-se facilmente a forma direta de bullying, observando comportamentos onde a agressão a nível físico é recorrente, muito utilizada pelos rapazes que assumem relações de poder recorrendo a este tipo de força. Já nas raparigas o padrão de agressão é, muitas vezes, indireto, através do recurso à violência verbal ou social, ou mais recentemente o chamado cyberbullying.

Mas o que diferencia o rufia do bullie? Uma relação com três sinais facilmente identificáveis:

 

  1. a existência de uma relação desigual de poder, em que o agressor (ou bullie) é o mais alto, o mais forte, o mais popular ou o mais bem sucedido socialmente;
  2. um padrão de repetição na agressão, com a escolha recorrente do mesmo alvo;
  3. um comportamento agressivo e negativo com a intenção de magoar o outro ou simplesmente o prazer de provocar medo.

Para identificar um agressor (ou bullie), não se pode pensar que este é uma criança ou jovem de uma família destruturada e violenta, que vive para aterrorizar. Estes estereótipos são absolutamente falíveis.

Os bullies são, usualmente, crianças e jovens sociáveis e que têm um grupo de amigos próximos, com uma boa auto­-imagem de si próprios e preocupados com a reputação e popularidade.

No entanto, no diagnóstico e reconhecimento entre crianças reguilas, rufias, respondonas, sem “papas na língua” ou, efetivamente bullies, é importante identificar alguns sinais de alarme, que isoladamente não são problemáticos, mas que conjugados ajudam na definição de um agressor:

- prazer por gozar e ridicularizar situações ou pessoas

- falta de empatia e dificuldade em se colocar no lugar do “outro”

- temperamento facilmente irritável ou dificuldade no controlo da raiva

- dificuldades ao nível da gestão das emoções, respondendo facilmente com violência física e verbal

- relutância em aceitar responsabilidade sobre as suas ações e culpabilização dos outros dos seus problemas.

O papel dos pais é muito importante no caso de um filho agressor. Antes de mais, devem assumir que este é um problema realmente importante na dinâmica familiar e não devem ignorar ou não dar importância com a desculpa de que é apenas uma fase própria da idade.

Os pais devem refletir com os filhos que cada um é responsável pelos seus comportamentos, que não nos devemos demitir ou negar responsabilidade pelos nossos atos e que estes têm efeito nos outros que nos rodeiam. Esta reflexão é essencial na relação, quando feita em conjunto, e deve abordar as causas, os efeitos e as consequências das suas atitudes e comportamentos. Mostrar alternativas de mudança de comportamentos, recorrendo ao pensamento crítico e ao questionamento como forma de alertar para comportamentos desadequados bem como o reforço positivo face a comportamentos de mudança.

Ao mesmo tempo, cabe aos pais serem parceiros das escolas e parte integrante e ativa das respetivas comunidades escolares. Passa por eles veicularem formas de assinalar todos os incidentes testemunhados por colegas ou outros adultos, e colaborando com os professores para que os incidentes sejam utilizados como momentos pedagógicos, como “conversas de roda” dos jardins de infância, debates de turma no 1º ciclo ou teatro debate nos mais velhos. E, acima de tudo, estar consciente de que todos os intervenientes nos incidentes (agressor, vítima, pais, outros alunos e adultos) podem precisar de ajuda de profissionais de saúde mental.

Porém, e o mais importante de tudo, os pais devem ser um exemplo nas relações que estabelecem, pois são estas que servirão de padrão para todas as relações dos próprios filhos.

 

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