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Conciliação paternidade e carreira

por Rui Brasil, em 18.01.16

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Este tema é usualmente abordado do ponto de vista feminino (e com muita pertinência!). Afinal, como gerem as mães vida profissional e gravidez, ausência para consultas de gravidez e ecografias, licenças de maternidade, horários de amamentação. 

Do ponto de vista de quem é pai posso assegurar que também não é tarefa fácil, ou seja, está facilitado na questão biológica (não engravidamos nem amamentamos, é certo) mas o mesmo não se aplica para quem quer usufruir em pleno dos direitos e deveres da paternidade. 

A quantos dos meus amigos, acabados de serem pais, lhes foi proposto (muitas vezes até por chefias femininas) a dispensa da licença de paternidade com o argumento de que o bebé recém-nascido precisa mesmo é da mãe?

Quantas vezes ouvi amigos meus assentirem que tinham medo de retaliações e por isso iam prescindir da licença a troco de não ficarem "queimados" junto dos chefes? Quantos não prescindiram de dias com os filhos depois das chefias lhes acenarem com dinheiro extra para ajudarem nas despesas inerentes à recém-paternidade? Quantos não tiveram que enganar o sistema e receber da segurança social e depois uma rubrica equivalente de salário de "prémio" para compensarem não terem usufruído de um direito que é seu? Quantos, perante a resposta "o bebé precisa é da mãe" tiveram que engolir que eram eles que precisavam de dias com os seus bebés, dias a gozar a paternidade recém-descoberta, a conhecer o filho, a observá-lo, a aprender quem era aquele novo ser, a viver em conjunto tudo com as mulheres e companheiras, a ser família, plural, que eram eles que precisavam daqueles dias com os seus bebés?

Quantos, já com filhos maiores, são olhados de lado quando faltam para dar "assistência à família", quantos têm que se confrontar com "mas a sua mulher não pode ficar com a criancinha?", como se a vida em família fosse responsabilidade apenas das mulheres e numa tentativa misógina de achar que quem tem que levar com o absentismo e com carreiras prejudicadas pelo aparecimento dos filhos seja sempre o membro feminino do casal? Quantos não ouviram dos seus pares "mas tu é que ficas em casa com a miúda doente? Queres lá ver que é a tua mulher quem veste as calças lá em casa?"? Quantos são olhados de lado quando avisam que vão faltar para acompanharem os filhos ("mas tens que ser tu a levá-la?" ou "mas se a tua mulher vai assistir à festa da escola do miúdo, para que é que vais tu também?") como se ao pai estivesse apenas reservado um papel de figurante na vida dos filhos?

Talvez muitos dos homens não assumam isto porque não reclamem para si os deveres, as responsabilidade e os direitos da parentalidade. Talvez para muitos a vida profissional não tenha sido prejudicada com a vinda dos filhos porque deixam para a companheira as reuniões na escola, as consultas médicas, as baixas para acompanhar viroses. Talvez para muitos homens, pouco tenha mudado porque uma vez que as mulheres já prejudicaram a carreira com a gravidez e o período de amamentação, "perdidas por cem, perdidas por mil, importa manter intacta a carreira de pelo menos um cá em casa: eu". Talvez para muitos homens não seja importante ouvir da boca da educadora o pregresso escolar dos filhos e fazer perguntas próprias, talvez para muitos homens seja irrelevante educar por procuração, seja mais fácil ouvir os resumos da vida dos filhos pela boca das mulheres à noite ao jantar, seja mais prioritário fazer horas extra (mesmo que se tenha passado a tarde com mil intervalos para fumar e beber cafés junto à máquina) do que chegar cedo a casa e dar banho aos filhos e cumprir a dois (não é "ajudar", é mesmo partilhar a vida doméstica em pleno) a vida em família.

Para estes, talvez esta questão da conciliação da paternidade com a vida profissional seja um não-assunto.

Mas, para todos aqueles que não perdem uma consulta de rotina da pediatra e rejubilam com o aumento de peso ou de altura do seu bebé, que não falham uma manhã de vacinas para dar um beijinho in loco no dói-dói, que não dispensam mandar beijinhos e bater palmas nas festas de Natal da escola, que insistem em se revezar na cabeceira da cama dos filhos internados para partilhar a "estopada" com a mulher, que se recusam a fazer horas extra sem que sejam imprescindíveis porque têm jantares para fazer ou banhos para dar, que não progridem na carreira, passaram de bestiais a bestas porque já não têm o mesmo tempo para dedicarem à carreira, para todos aqueles que sentem na pele as dificuldades de conciliar uma paternidade vivida e plena com a vida profissional... um abraço solidário!

É que ser-se pai não tem que ser mais fácil do que se ser mãe. Tem que ser igual. Para o bem e para o mal.

Estamos todos juntos!

 

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