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Desde que o casal passa a ser uma família de pais com filhos é muito difícil que essa nova dinâmica não se torne uma unidade indissociável, com todos os membros fazendo parte de um plural e regra geral- a individualidade que prevalece vai sendo a dos novos elementos- filhos- podendo haver uma tendência ao papel dos cônjuges enquanto seres individuais e parte de um casal se diluir. 

A parentalidade não é pêra doce. A adaptação ao primeiro filho e a readaptação do casal a cada filho que nasce de seguida não sendo difícil é trabalhosa, implica um grande jogo de cintura, necessidade de se deixar cair ou alterar hábitos e rotinas, criar novos reajustamentos, novas escalas, novas tarefas, novas responsabilidades, nova articulação entre os membros do casal. A capacidade de comunicação, a tolerância, a capacidade de negociação e, principalmente, a capacidade de ajustamento e adaptação são postas, todos os dias, à prova. E doem na pele, no humor, na energia e no ambiente que se vive dentro do casal. 

Não me interpretem mal: ser pai é fabuloso! Fazer parte de um casal que passa a assumir funções de parentalidade é um desafio tão duro como compensador. Quando me perguntam se um casal é mais feliz depois de ser-se pai eu não consigo responder que sim nem que não. No meu caso estávamos numa fase muito feliz do nosso casamento quando "engravidámos", pelo que, a vinda da nossa filha teve um efeito amplificador a essa felicidade. Talvez se a Ana tivesse vindo noutra fase da nossa vida, onde não estávamos em sintonia nem alinhados como aconteceu quando ela nasceu, a nossa experiência teria sido diferente. A parentalidade é como uma lupa na vida de um casal: se as coisas estão bem ficam ainda melhores, se estão complicadas os desafios e as exigências são tantas que podem ainda complicar mais a vida a dois e em família. 

No entanto, o desgaste do dia-a-dia, as necessidades, a motivação e as expectativas individuais de cada membro do casal podem divergir e o divórcio pode, ser por vezes, o caminho que se segue. 

 

O divórcio é, regra geral. encarado pelos membros de um casal como uma derrota, uma falha. Mesmo que haja novos parceiros, mesmo que seja a solução melhor para um dos membros, para os dois, para todos, há sempre uma sensação- mesmo que inconsciente- que aquele objectivo e projecto construído a dois falhou. E é, precisamente, disso que se trata: o projecto a dois falhou mas, quando há filhos, filhos enquanto projecto dos dois, então esse tem que continuar, o mais incólume e intacto possível. 

As crianças devem ser tratadas como crianças, sendo poupadas a argumentos e factos que dizem respeito aos adultos, mas sendo tratadas com o respeito que os pais lhes devem enquanto membros da mesma família. Não há nenhuma chave secreta nem solução milagrosa para as crianças passarem, incólumas, por um divórcio. 

Mas há estratégias facilitadoras:

Comunicação- A comunicação deve ser preparada por ambos os progenitores e deve estar alinhada. Mãe e pai têm que falar a mesma linguagem para não se dar azo a dúvidas, inquietações, segundas interpretações ou falsas esperanças. Numa primeira fase mãe e pai devem estar juntos quando as conversas são cruciais mostrando que se encontram alinhados e em sintonia na decisão e não deixando margem para dissonâncias. Mãe e pai devem apresentar de forma clara e adaptada à idade e à compreensão de cada criança os factos ("a mãe e o pai vão-se separar/ passar a viver em casas diferentes porque já não gostam um do outro como marido e mulher/namorados mas vão continuara  gostar um do outro como amigos e sempre de ti de igual forma à que sempre gostaram"), as emoções ("a mãe e o pai estão tristes/tranquilos/seguros mas acham que isto é o melhor para todos e daqui a uns tempos estaremos todos habituados às novas rotinas" ou "sabemos que agora vai ser diferente e a mudança vai ser um desafio para todos mas estamos certos que em breve estaremos todos ok"), as necessidades ("precisamos que compreendas tudo e que faças todas as perguntas que tiveres" ou "precisamos que fiques tão bem quanto o possível e que nos deixes ajudar-te se tiveres alguma insegurança" ou "precisamos que estejas à vontade para recorrer a nós para o que precisares ao longo deste processo") e o pedido ("Podemos contar contigo?"). 

 

Noção de igualdade- Os filhos não são das mães. Nem dos pais. São pessoas, seres individuais. O que pertence a ambos os pais é a responsabilidade de dar educação, afecto e promover o conforto, o bem estar e a qualidade de vida destes filhos. Assente nesse pressuposto, quando me perguntam qual a organização ideal do tempo das crianças com pais separados a minha resposta é: a que potencie que os filhos consigam estar o maior tempo de qualidade possível com cada um dos progenitores. Se numa família um dos pais trabalha longe e só chega à noitinha e a criança tem que ficar entregue aos avós até o progenitor chegar a tempo de o ver dormir e de manhã vê a criança a correr antes de ir para a escola enquanto o outro pai tem um horário mais flexível e consegue acompanhar a criança todos os dias na elaboração dos trabalhos de casa, nos banhos e no jantar fará sentido que a criança viva num regime de semana intercalada com ambos os progenitores? Por outro lado, se ambos os pais tiverem capacidade de assegurar rotinas semelhantes aos filhos, de cumprirem os horários estipulados, de assumirem os compromissos do dia-a-dia das crianças faz sentido que apenas um deles coabite durante a semana com a criança e o outro só tenha oportunidade de o fazer durante um fim-de-semana quinzenal? As crianças precisam de estabilidade e rotina. Independentemente do modelo que se adopte e que seja o mais ajustado à dinâmica das famílias é importante que essa rotina seja cumprida e que a criança tenha a segurança e a confiança de saber e antecipar o que vai acontecer com o seu tempo e os seus dias. Daí, alterações aos esquemas acordados devem ser pontuais e sempre consultando a criança, como ser com vontade, individualidade e voz que tem. 

 

 

Facilitação- Os pais devem pensar o que é melhor para os filhos nas novas dinâmicas e adaptarem-se, tanto quanto lhes for permitido, de forma a perturbarem o mínimo possível o dia-a-dia e a rotina dos filhos, especialmente quando o divórcio ocorre na adolescência onde a rigidez é maior e a motivação para adaptação à mudança é menor. Se o pai só consegue jantar às quartas-feiras e para a mãe é indiferente, fazer fica-pé e colocar objecções ou fazer resistência passiva só como manifestação de poder ou questões de afirmação do ego é perigoso e não faz sentido. Privilegiar o interesse dos filhos às emoções, frustrações, recalcamentos e egos feridos dos adultos é essencial. O exercício é simples: empatia ("se eu fosse o meu filho o que gostaria eu?").

 

Estilos parentais- É normal que, nas novas dinâmicas de coabitação, existam algumas alterações e mudanças às normas até aí vigentes. Na verdade, alguns progenitores, depois de saírem da unidade do casal, decidem mudar algumas opiniões e alterarem algumas regras, hábitos, rotinas. É importante que, nos temas realmente importantes (alimentação, escola, saúde, hábitos de sono, segurança, hábitos de lazer) e em que as regras foram sendo definidas pelo casal antes do divórcio, as mesmas prevaleçam. Lembre-se que se esse foi o modelo adoptado pelos dois, é reconhecido pelo filho como tal e se o hábito entrou na rotina e foi assimilado é contra-producente alterá-lo. 

Em temas menos fracturantes os pais podem não estar de acordo e assumirem as suas regras próprias, sendo importante para a criança perceber o tempo e o espaço em que cada estilo parental prevalece e ficando clarificado que não pode haver cobranças nem cedências a um ou outro progenitor, nem catalogações ou qualificações de "certos" ou "errados", ou oposições de "bom" ou "mau" no que se refere às normas de cada um. Podem haver regras diferentes e elas são vividas em espaços e tempos diferentes e sob alçada de um progenitor diferente. 

 

Respeito- Preserve a imagem do outro pai do seu filho perante os olhos deste da mesma forma que gostaria que ele o resguardasse e não o expusesse a si. Os progenitores podem deixar de ter uma relação amorosa e de partilharem laços damiliares entre si mas conjugalidade e parentalidade são coisas diferentes e,quer-se queira ou não, serão sempre pais e família dos filhos. Não faça perguntas ao seu filho do que se passa na outra casa porque a sua curiosidade não deve valer mais que a lealdade do seu filho ao outro progenitor, é importante não colocar o filho numa situação de "saia justa", de desconforto, de oposição e, ainda menos, de tomada de posição. 

Quando ainda somos uma família e ainda há unidade e consistência entre os laços protegemo-nos uns aos outros, sabemos dos defeitos de cada um mas tendemos a comprendê-los, a aceitá-los, a minimizá-los e a valorizarmos as coisas boas. Continue a fazer o mesmo depois do seu divórcio. Porque para si há um depois do divórcio. Para os seus filhos não deverá haver um depois dos pais. 

 
 

 

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