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Quando os nossos filhos nascem torna-se, invariavelmentre, nas pessoas mais importantes do Mundo para nós, como se tivessemos uma espécie de epifânia e o amor maior de desvendasse ali à nossa frente, escancarado diante dos nossos olhos, fazendo-nos transbordar o coração. 

No entanto, no nosso dia-a-dia, a azáfama e a correria dos dias faz com que as rotinas e o quotidiano atropelem as famílias. Muitos de nós, pais trabalhadores, levantamo-nos cedo, damos o pequeno almoço aos nossos filhos, deixamo-los a correr nas escolas e viamos para os nossos emprejos, onde chegamos, na maioria das vezes, cedo e já (muito) estafados. Ao final do dia, a correria não é diferente: muitas vezes depois de actividades extra-curriculares, centros de estudo, chegamos a casa e é hora do banho, das tarefas escolares, do jantar e da cama. Nesta equação interferem, muitas vezes, o trânsito, as preocupações, cuidar dos nossos ascendentes, trabalho extra que se traz do escritório ou horários por turnos que nos destabilizam o dia-a-dia. Aos fins-de-semana gastamos grande parte de um dos dias livres a fazer limpezas ou, outra vez, em actividades extra-curriculares ou na vida social dos filhos que acumulam festas de aniversário para as quais andamos (outra vez) sempre em correria.

Não digo que é sempre assim em todas as famílias mas, na maioria das vezes, é este o padrão do dia-a-dia da maioria das famílias que conhecemos ou com quem trabalhamos.

Sobra às famílias- infelizmente- pouco tempo para estar junta, para fazer coisas juntas, para criar momentos de cumplicidade partilhados ou rotinas de tempo livre em comum. 

É quase raro o dia em que, estando a falar ao telefone com uma pessoa amiga, ela não é interrompida por um filho que escolhe aquele momento específico para reclamar a sua atenção. Muitas vezes, em contexto de trabalho, alguns pais acusam alguma falta de paciência face aos pedidos diários dos filhos para se sentarem a brincar com eles (ora, com jantar ao lume, loiça por lavar, TPCs dos filhos mais velhos para supervisionar e toda uma família para gerir, quem tem vontade para "perder tempo" a brincar?).

Sou suspeito porque trabalhei em ludoterapia durante muitos anos mas acredito que, durante a primeira infância, mais importante que aprenderem uma segunda língua, de aprenderem a nadar, de se iniciarem no ballet ou no futebol, os maiores ganhos das crianças a nível emocional (que alavancará todas as suas aprendizagens futuras, mesmo as que dependam do seu potencial cognitivo) dependem do "brincar". 

Sou muito solidário com a azáfama do dia-a-dia de todos os pais. Acredito, com muita convicção, que o maior desafio da parentalidade é este: o da gestão de tempo e de tarefas. E acredito, ainda com mais força, que não há nada mais importante que possamos proporcionar aos nossos filhos do que tempo. Tempo para brincarem, para descobrirem, para aguçarem a curiosidade, para se entediarem, para experimentarem diferentes emoções, para estarem em silêncio e para partilharem com os pais. Mas tempo de qualidade e não apenas tempo. Tempo juntos e não tempo em conjunto. 

 

Criar rotinas diárias que mostrem as nossos filhos o quão importantes eles são para nós é essencial. Aqui em casa não abrimos mão de tomar o pequeno almoço sentados e sem pressas, respeitando o ritmo matinal da nossa filha (e, sim, isso implica que temos que acordar mais cedo), após o banho há uma sessão de massagens a que ela chama de "bombom" e de que ninguém prescinde pelos minutos de satisfação e de proximidade que sentimos, o que não faz o jantar senta-se no chão a brincar com ela com a televisão desligada e sem estímulos externos, jantamos sempre em conjunto e todos contam como foi o seu dia (treinar a verbalização e a partilha das conquistas, principais dificuldades sentidas, pontos altos do dia ajuda-nos a ter a sensação de que participamos no dia um dos outros, que o conhecemos e que conseguimos prever e acompanhar os dias que se seguem com maior "segurança". E, claro, a ter empatia uns pelos outros!), à noite a mãe conta sempre histórias e eu canto. Todos os dias. Todas as noites. Sempre que não haja uma situação de excepção que não passa disso: uma situação de excepção. 

Cabe aos pais criarem os seus espaços e tempos em conjunto e em exclusividade. Criarem regras ("das 19h30 às 21h30, entre estar com os miúdos e deitá-los não atendo telefonemas de ninguém por regra" confidenciou-me noutro dia um amigo que se viu confrontado com o facto do trabalho lhe entrar  pela dinâmica familiar sem horários nem pudores, tendo zelado sempre para que a vida familiar não interferisse no seu horário laboral) e excepções (famílias que criam "a tarde do filho único" uma vez por semana são um óptimo exemplo), rotinas (a história antes de deitar ou a massagem após o banho) e mimos específicos para cada filho (há filhos que gostam de cafuné deitados no sofá, outros de fazer puzzles a dois, batatas esmagadas com o peixe cozido numa espécie de puré improvisado) é darem aos filhos a certeza de que estão atentos ao que os faz feliz, que eles vos importam e que as suas necessidades são importantes. 

As crianças precisam de segurança, de previsibilidade (lembram-se que eles adoram ver o mesmo episódio da Patrulha Pata dezenas de vezes seguidas mesmo conhecendo as falas de cor? Pois, crianças adoram a segurança da previsibilidade!) e das certezas da estabilidade. Crianças precisam de saber com o que contar, de se tranquilizarem com as rotinas criadas, de estabilidade. Precisam de saber que terão a atenção exclusiva do pai e da mãe nas situações a, b e c ( no carro quando regressam da escola, à mesa quando têm a palavra e as atenções todas concentradas neles, antes de dormir, etc.) sem precisarem de reclamá-la indiscriminadamente e a todo o custo. Crianças precisam de se sentir importadas e importantes. 

E precisam de o ouvir. Muitas vezes, para solidificar as acções. 

Diga aos seus filhos "tu importas-me!". Reforce um momento especial reiterando "Tu és muito importante para mim!" (digo-o muitas vezes quando ela me abraça espontaneamente ou quando o telefone toca e eu estou num momento com ela e lhe explico que não vou atender porque agora estou com ela e ela é mais importante do que o telefonema para mim!). Diga-lhe "adoro ser teu pai/tua mãe" ou "o que tu sentes é importante para mim!", "esta família não seria a mesma sem ti", "estou tão feliz por estarmos a passar este tempo juntos" ou ainda, "a tua opinião é importante para a nossa família".   

Ao contrário da premissa anterior em que, na minha óptica, a palavra "Amo-te" não tem substituto à altura ("gostar muito" gosta-se de pizza ou de ver filmes de terror e "adorar" adoram-se os Deuses) dizer "Importas-me!" diz-se e mostra-se de muitas formas. Pratique-o ambos (o dizer e o mostrar) de várias maneiras. Crie o seu próprio código, as suas próprias rotinas, as suas vivências de cumplicidade com os seus filhos.

Dê-lhe o seu tempo, a sua disponibilidade, a sua atenção, a sua energia e as suas palavras. E lembre-se, faça-o sentir-se importante e importado.

A auto-estima dele agradecer-lhe-á para sempre. 

 

Questão de reflexão: "Quais as rotinas, espaços e tempos, regras e excepção que mostram ao seu filho o quão importante ele é para si? Como o transmite verbalmente?"

Livro: "Lobo Grande e Lobo Pequeno"

 

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