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Entre pais #1

por Rui Brasil, em 31.01.16

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 " Olá! Tenho um filho com 20 meses (mais coisa menos coisa)... rapaz. Normalmente visto-me com ele no quarto, porque sou eu que o levo ao colegio. Nestes dias ele começou a aperceber-se nalgumas coisas no meu corpo, nomeadamente, quis tocar-me nas maminhas, o que eu não permiti (estava só de sutien e cuecas). Acho que se começa a aperceber do próprio corpo e das diferenças entre meninos e meninas.

Tenho três perguntas:
 
1- Será correto vestir-me e despir-me em frente dele?
2- Será correto às vezes pô-lo na banheira com o pai?
3- Como educar para a sexualidade responsável, ou seja, que ninguém lhe deve tocar se ele não quiser?
Espero não ter sido muito longa e desde já agradeço a ajuda.
Beijinhos para toda a família, X."
 
 
 
Algumas ideias e pontos para reflexão:
 
 
Antes dos 2 anos é pouco provável que a criança se aperceba, realmente, da diferença entre os sexos. Nesta idade, as crianças são absolutamente auto-centradas e não é comum que tão precocemente se comecem a interrogar acerca das diferenças de género.
 
Não faço ideia se amamentou o bebé ou se ainda amamenta ou, se por outro lado, deixou de o fazer recentemente, razão que pode explicar o interesse deste pelas mamas da mãe. Por outro lado, acredito que, neste caso específico, e com 20 meses, o seu bebé esteja apenas curioso acerca do corpo da mãe e essa curiosidade sobre a exploração do corpo é inata; desde que nascemos exploramos o nosso corpo e o da mãe. A ver: os bebés metem os dedos à boca, brincam com o mamilo da mãe enquanto são amamentados, etc.
 
Por volta dos dois anos a criança começa, de facto, a aperceber-se da existência do outro, passando a interessar-se por ele e procurando interagir mas, costuma apenas acontecer por volta dos 3 ou 4 anos a percepção das diferenças entre géneros e a curiosidade em explorar essas diferenças.
 
Na fase etária que me refere (20 meses) a sua exposição sugere-me apenas uma necessidade de toque em si mesmo ou na mãe como algo fundamentalmente sensorial. Acredito que o seu filho possa sentir apenas que o toque é macio e relaxante. Neste sentido, são os adultos que podem dar, dependendo de seus próprios tabus, um sentido sexalizado e malicioso a esses comportamentos.
 
Assim, na minha óptica, o que o seu filho procura é meramente sensorial e praticar a curiosidade que é inata a todas as crianças, pelo que, não vejo por que nesta fase deva proibir ou atribuir uma conotação de tabu a uma parte do seu corpo. Não acho que deva deixar de se vestir e despir diante dele e também não acho que deva privá-lo de tomar banho com o pai, a menos que algum deles se sinta desconfortável com a situação.
 
No entanto, a partir dos 3/4 anos ambos os comportamentos (mãe vestir-se/despir-se ou partilhar o banho com o pai) são, no meu ponto de vista, desaconselháveis.Nesta idade, o seu filho começa a individualizar-se, começa a explorar, descobrir e controlar o seu próprio corpo e deve ser incentivado a cuidar dele de forma autónoma (vestir-se, despir-se sozinho, ir ao quarto de banho sozinho, limpar o rabo, o pipi ou a pilinha de forma autónoma -contudo supervisionada- após a ida ao quarto de banho e durante o banho deve ser convidado a lavar os genitais sozinho) de forma a atribuir uma conotação de valor e de importância aos mesmos, reforçando que há zonas do corpo que só a ele compete tocar (noção de intimidade).
 
Nesta fase, é importante trabalhar os conceitos de intimidade e pudor, cabendo aos pais reforçar as fronteiras entre o seu corpo e o dos outros, a não banalização e a valorização do corpo e a preparar terreno para uma educação para uma sexualidade saudável.
 
Aos 3/4 anos estas questões ainda não são morais mas apenas de respeito pelo corpo da criança, do espaço que ela precisa e da sua intimidade. Pais que respeitam estas questões fulcrais educam os filhos para verem esse respeito como um direito adquirido e um bem irrefutável, não querendo abdicar disso no futuro (a ideia de "o meu corpo a mim pertence" e "no meu corpo mando eu"), nomeadamente, durante a adolescência.onde continuarão a manter o padrão estabelecido na procura de privacidade e de vivenciar em privado a sua sexualidade.
 
Assim, a partir dos 3/4 anos, a não ser em casos muito pontuais, pais devem vestir-se em privado e tomar banho sem os filhos, exemplificando as noções de privacidade e intimidade e permitindo que as crianças se situem e balizem face às questões do próprio corpo.
 
 
 

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