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Eu também já fui uma pessoa sem filhos

por Rui Brasil, em 05.01.16

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 Eu já estive dos dois lados da barricada. Não concordo nada quando os pais se passam a apresentar como seres iluminados, pessoas num estádio evolutivo superior, como se ao se ter filhos se desse um passo para um degrau evolucionista acima, com aquele ar condescendente e seguro de "agora é que eu sei o que é... o amor/a vida/dar valor às coisas/a felicidade", como se o passaporte para a legitimidade de se dizer coisas viesse com as criancinhas. Não vem. 

Mas também me faz muita confusão quando os próprios pais vendem a ideia de que ser pai é um martírio, um corte absoluto com uma vida plena, um rol de sacrifícios, uma carga pesada e uma estrada sinuosa para se percorrer e que "nunca mais se tem descanso". Não é verdade. Pelo menos no que a mim me diz respeito.

O problema das generalizações é este. Com certeza que haverá gente para quem a parentalidade mudou demasiado a vida e que tem saudades da vida que tinha. Que, talvez, no passado tivessem uma vida com mais tempo, disponibilidade, momentos de lazer ou mais prazeirosa. Cada um sabe da sua vida. Mas, como diz a minha excelsa esposa, há pessoas para quem a parentalidade não mudou assim tanto a vida e que não sentem que tenham deixado de ser gente tal como eram antes, de ter qualidade de vida e para quem o seu grau de satisfação com a vida não tenha entrado em declínio. Há de tudo ou não fossemos nós, a quem tentam muitas vezes aglomerar na categoria única dos "pais com filhos", um conjunto de pessoas com a sua própria individualidade, experiências de parentalidade únicas, pessoais e intransmissíveis.
Já conheci muita gente sem filhos e com uma vida muito insatisfatória. Tal como já conheci muita gente com filhos e que se sente miserável. O contrário também é válido- tenho amigos sem filhos com uma vida fabulosa e que não querem nem sentem necessidade de ter filhos porque a vida que têm lhes serve lindamente. Bem como pessoas com filhos que sentem que agora é que têm a vida que sempre sonhavam e que não voltavam ao registo sem filhos por nada.
Cá em casa pertencemos a estes últimos. Eramos felizes antes de sermos pais. Aliás, houve de tudo- momentos muito felizes como momentos de grandes chatices antes de termos a Ana, ou não fosse isto uma relação. Mas eramos, genericamente, pessoas felizes, de bem com a vida e enquanto não a tivemos não achávamos necessidade nenhuma de termos filhos para sermos mais felizes. Quando começámos a viver juntos, saídos de outros registos de co-habitação, de outras dinâmicas familiares, tivemos que nos adaptar à nova realidade, construir os nossos próprios hábitos e rituais e aprender a viver um com o outro. Não foi nenhum sacrifício, foi, antes, uma necessidade a que fizemos face porque queríamos partilhar a vida um com o outro. Nunca nos lamentámos que antes é que era bom, nunca a ouvi dizer que na casa da avó é que ela vivia bem, que era muito melhor sentar-se e já ter o jantar na mesa, não se preocupar com a roupa suja ou ter mais dinheiro para fazer uma data de coisas porque não tinha que pagar renda. Ela nunca me ouviu reclamar que viver sozinho é que era bom, que saudades que eu tinha de não ter que negociar o comando de televisão, que bom que era poder espalhar roupa pela casa sem que ninguém me chagasse o juízo. Escolhemos viver juntos e fizemos concessões para o bem estar comum.
Depois da Ana nascer continuamos felizes. Aliás, também temos de tudo- já tivemos momentos muito felizes como também já tivemos chatices. Ou não fosse isto uma vida.
Não sei se somos mais ou menos do que antes de sermos pais, não me interessam comparações. Somos muito felizes com esta escolha que fizemos e as coisas que valorizamos hoje e que contribuem para essa sensação de felicidade serão, com certeza, diferentes das que tinhamos antes de ser pais. Não melhores nem piores. Apenas diferentes. Não fazemos nenhum sacrifício, mas, antes,  respondemos aos desafios que a vida nos coloca porque decidimos que queríamos partilhar a vida um com o outro e com um filho de ambos. Escolhemos viver juntos, escolhemos ser pais e fizemos concessões naturais para o bem estar comum.
E fazem todo o sentido na nossa nova dinâmica familiar não havendo espaço para comparações nem para lamentos do bom que era antes e das diferenças na vida do quotidiano que a parentalidade nos trouxe.
A única diferença que sinto é que quando a Ana nasceu nasceu uma mãe nesta casa. E nasci eu como pai. E gosto, muito, de conviver com essas duas figuras, mesmo que me cruze com elas, ensonado e de mau humor, todos os dias quando acordamos mais cedo porque há um terceiro elemento que madruga e depende de nós e que contribui, em grande escala, para esta sensação presente de felicidade e satisfação com a vida. Não melhor nem pior do que a que sentíamos antes de sermos pais. Apenas diferente. E que, neste momento, nos cabe mesmo mas mesmo bem.

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1 comentário

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De Inês a 05.01.2016 às 14:26

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