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Mãe da filha#3

por Rui Brasil, em 26.01.16

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 "As crianças não são filhas das profissões dos pais

 
Talvez a par dos psicólogos só os educadores de infância sofram na pele os mesmos comentários parvos e estereotipados. Nesta família, para piorar o cenário, ambos os pais são psicólogos, o que faz com que as expectativas relativamente à criancinha sejam de que ela seja um tamagotchi amestrado, cronometrado, pré-programado e exemplarmente bem comportado. Não é. Graças a Deus!
"Ah, em casa de ferreiro, espeto de pau- afinal a miúda é com'os outros!" ou "Com os pais psicólogos e faz birras?" são pérolas que ouvimos, de gente que as entoa com um certo gozo de "é bem-feita porque o cão tem a mania que é espertalhão". A nossa reacção? Como é que hei-de dizer isto tecnicamente em bom psicologizês? Borrifamo-nos. E ainda gozamos com isso.
 
A Ana não é filha da Psicologia: é minha filha e do pai. Pessoas, seres humanos, pais de primeira viagem, com emoções e sentimentos, gente. E faz-me alguma espécie que as pessoas acreditem que por sermos psicólogos passamos a ser altamente racionais na forma como gerimos os nossos papéis familiares onde, não somos Drs., mas a filha, a neta, a prima e, neste caso, a mãe. Pessoas, independentemente da sua profissão.
Vamos lá desmistificar: eu e mámen somos pais da Ana. Pais. Não somos psicólogos dela.  
Sim, lamentamos desiludir-vos, somos uma fraude porque que não olhamos para a nossa filha como uma paciente, não a tratamos como uma utente, não temos o distanciamento emocional, a frieza e a racionalidade, o objectividade e a imparcialidade de análise que se esperam em dois psicólogos. Caraças! Que parvos que somos que deixámos a parentalidade levar um avanço relativamente à Psicologia, deixámos as emoções da maternidade e paternidade se sobreporem ao conhecimento científico da Psicologia. Pffff!
E rimo-nos, quando olham com desdém para nós, desiludidos pela nossa filha ser uma criança normal e não uma Eusébiasinha, por fazer birras, dizer não, não fazer à primeira o que lhe pedimos, ser caprichosa e querer levar a sua vontade avante, querer ver respondidas no imediato as suas necessidades, chorar quando não cedemos e tudo e tudo. Somos uns incompetentes porque a nossa filha de 2 anos se comporta como qualquer criança de 2 anos. Pffff!
 E deliramos quando notamos os olhares intrigados dos que esperavam que filha de psicólogos fosse uma autómata, sobredotada, com inteligência emocional acima da média, com a maturidade de um adulto apenas porque os pais escolheram estudar e exercer Psicologia como profissão.
Depois questionamo-nos se as pessoas acharão que os filhos dos médicos nunca ficam doentes, se os filhos dos professores são todos excelentes alunos, se os filhos dos advogados têm um inato sentido de justiça e se os filhos dos arquitectos constroem legos logo ali na maternidade. E rimo-nos mais
A Ana é nossa filha, pessoas, seres humanos e emocionais, pais. Não é filha da Psicologia.
E sabem que mais?
Ainda bem."
 
 
Liliana (minha mulher e mãe da minha filha)- Quadripolaridades

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