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Mãe da filha#6

por Rui Brasil, em 18.09.16

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" Primeiro íamos ver o mar. Era Verão quando nasceste e consolámo-nos, naquele primeiro mês, com passeios demorados, de uma família a estrear, no paredão. 

Depois os tios passaram a visitar-nos em casa, todos os domingos a seguir ao almoço, para juntos bebermos café e te mimarem. Acontece até hoje. 

Chovia, e tu já tinhas uns meses, e agarrávamos no carro e estacionávamos à porta da "Saudade" ou do "Gourmet da Maria" e pedíamos chá quente e scones ou panquecas americanas com xarope de ácer e tu aprendias a sorrir, naquele primeiro Inverno, entre paredes quentes e aconchegadas desta Sintra que amamos.

Vieram, logo a seguir, os programas estruturados. Papávamos tudo: concertos para bebés, leituras de  contos infantis em livrarias de Bairro, ioga para bebés, peças de teatros infantis. Assistíamos ao teu riso, cada vez mais solto, cada vez mais direccionado, cada vez mais selecto e sentido, cada vez mais sinónimo de quem és tu. 

Depois chegou a escola, mudámos de trabalhos e passámos a ter que trabalhar a partir de casa. O tempo passou a ser mais ditador mas aos domingos- oh aos domingos- nenhum relógio manda em nós. 

Domingos são, agora, dias de panquecas às onze da manhã. Panquecas com mel para ti e com compota e queijo para nós. Chá com leite para nós e chá simples para ti. Janelas abertas para arejarem a casa e sestas a três, encaixados no espaço minúsculo do sofá, é magia como conseguimos caber lá os três. Domingos são dia de sair com a tua infãncia à rua, de engalanarmos a paternidade, de Parque Marechal Carmona ou lanche na Casa da Guia, de missa nos Capuchos seguida de sabores partilhados logo ali em baixo, no Mundo que te queremos mostrar, todinho concentrado no Martim Moniz. 

Domingo é dia de vestires saia e rodares sobre ti. É dia de soprares bolas de sabão à vontade. De sujares as camisolas e de coleccionares novas nódoas negras nas pernas e esfoladelas nos joelhos. Domingo é dia de te encontrares com a tua amiga Laura, de andares de bicicleta no quintal da tua avó, de almoçares tarde e de jantares quase à hora de dormires. Domingo é dia de risos mais altos, de galgalhadas sem pudores, de nós abraçados a vermos-te crescer, todos os dias, aos domingos com mais vagar, aos domingos com olhos de domingar.

Gosto da previsibilidade de saber que ao domingo tudo pode acontecer:  rotinas que criámos, novidades que introduzimos, brincadeiras que revisitamos ou inventamos, cheiros que se repetem, sabores que se tornam parte de nós, imagens que se podiam, assim nos lembrassemos, tornar nas melhores fotografias da tua infância. 

Domingos são dias de se construírem memórias em família. São dias de nós."

 

Liliana (minha mulher e mãe da minha filha)

 

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