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 A nossa filha nunca nos deu problemas quanto ao que à comida diz respeito. Foi alimentada a leite artificial (mas nunca foi amante de leite), pelo que, regozijou com a introdução das papas e depressa encarrilou com a introdução da sopa e dos sólidos. À excepção de doces (o que inclui chocolate) e batatas (que acreditamos que não goste devido à textura e não propriamente ao sabor) que não gosta, a Ana come de tudo. 

Neste post escrevo como pai, exclusivamente, até porque não sou entendido em nutrição nem sou especialista na área alimentar mas queria partilhar convosco algumas estratégias que fomos introduzindo na nossa vida familiar à mesa e que poderão aplicar-se às vossa rotinas e dinâmicas familiares (algumas estratégias foram por tentativa-erro, outras porque consultámos bibliografia sobre o assunto e testámos e lembro-me ainda que, com a minha mulher grávida da Ana, assistimos a um workshop sobre alimentação com a Solange Burri , a cujos apontamentos continuamos a recorrer ocasionalmente).

Para vos ser franco, não sei exactamente se estas estratégias estão ou não na base da concórdia alimentar que reina na nossa casa ou se, de facto, como apontam algumas amigos nossos tivemos mesmo sorte e a Ana é impecável no que se refere à alimentação. 

A saber: 

  

1- Comida não é um castigo nem um prémio

Esta é a nossa primeira premissa. Nunca tratamos a comida como uma moeda de troca, seja para castigar a Ana ("se não fizeres isto não comes sobremesa!") ou para recompensar ("se te portares bem, dou-te um chocolate"). A comida é para ser tratada como fonte de alimento, fonte de crescimento, energia e força e não como gorjeta face a comportamentos apreciados ou arma de chantagem face a atitudes indesejáveis. Acreditamos que dar um carácter de punição ou prémio à comida pode estar na base de uma relação emocional com os alimentos que pode degenerar em perturbações de foro alimentar no futuro. Cá em casa come-se porque sim, porque precisamos de comer para sobreviver, para ter energia, força anímica e porque a hora de refeição é uma hora de encontro e de partilha.

 

2- Comida não é tabu 

Não há tabus quanto à alimentação com a Ana, nem alimentos proibidos, nem alimentos venerados. A Ana é convidada a experimentar um bocadinho de tudo o que há disponível e não assumimos a proibição de nenhum alimento.

Por exemplo, provou coca-cola (e gostou) mas não bebe coca-cola em casa, simplesmente, porque não a tem disponível no frigorífico ou na despensa, logo, nem se lembra que existe essa opção. Se vai a uma festa de aniversário e lhe apetece beber um copo de coca-cola, nós permitimos, devido ao carácter de excepção. A Ana nunca se lembra que coca-cola é uma opção nas refeições do dia-a-dia cá de casa. Porque não é. Mas a coca-cola não é um mito nem é um objecto de desejo. É só coca-cola. 

Quem diz coca-cola diz qualquer outro alimento. A Ana já foi ao McDonald e não caiu o carmo nem a trindade por isso. Nós escolhemos-lhe o Happy Meal, substituímos as batatas pela sopa de ervilhas, o refrigerante pelas águas de luso com sabor a frutos vermelhos e pedimos hambúrguer sem qualquer molho. Metemos o tabuleiro à frente da Ana e, mais uma vez, não houve questões, ou seja, não tendo aqui a opção do refrigerante limitou-se a beber a água que também bebe muitas vezes em casa, sem espinhas. 

 

3- "Podes não gostar, mas só depois de teres provado"

Outra questão é que, cá em casa, pode não se gostar mas prova-se tudo antes de se decidir se se gosta ou não, ou seja, vai-se apresentando alimentos à Ana e convidando-a a experimentar. Se ela se recusar, nós não insistimos porque não queremos dar uma conotação negativa ao alimento e criar anti-corpos. Simplesmente, retiramos o alimento da frente e voltamos a ele noutra ocasião, até que ela se decida a experimentá-lo.

Alguns nutricionistas defendem que uma criança pode ter que ter contacto até 15 vezes com um alimento até decidir prová-lo e que a recusa numa determinada fase não é garantia de uma recusa do alimento para sempre. 

 

O "Não gosto! é sempre corrigido por um "Quando experimentares logo decides se gostas ou não.". E prossegue-se a rotina da refeição, sem grande enfoque dado aos alimentos e não os tornando no assunto principal à mesa. A refeição é mais do que mera alimentação: é um momento de partilha e de convívio entre as famílias e queremos sempre reforçar o momento de alegria que é estarmos juntos à mesa. Comida não é assunto!

 

4- Não há lanchinhos entre refeições

Quer dizer, há o lanche entre o almoço e o jantar, claro, mas não há pequenos snacks para saciar a fome meia hora antes das refeições principais. Ter fome, num país de primeiro Mundo, com frigoríficos com alimentos disponíveis e refeições com horários marcados e já à espreita, não é um drama! Ter fome antes do almoço ou do jantar é normal e a garantia que a refeição principal é, ainda mais, apreciada. A comida sabe melhor se estivermos com fome e os alimentos com mais nutrientes são preferencialmente comidos às refeições principais, portanto, é bom que haja apetite para eles e não para snacks.

 

5- A refeição é mais do que comer

Mais uma vez reitero que na nossa casa a refeição é uma hora de alegria.Todos contribuem para que ela aconteça- os pais cozinham, a Ana ajuda a pôr a mesa e a levantá-la. Todos têm o seu papel e a refeição só acontece com todos sentados à mesa (sempre de televisão apagada e sem qualquer tecnologia auxiliar, pois a refeição, por si só, é um momento de convívio, não precisa de acessórios). Durante a refeição conversa-se de tudo o que aconteceu durante o dia e vai-se comendo para acompanhar a conversa. Tenta-se comer o mais devagar possível para prolongar a hora da refeição e o momento em que todos nos encontramos à mesa.  À mesa só valem duas coisas: conversar e comer. 

 

6- Os vegetais e as frutas são deliciosos

Vamos sempre ao mercado comprar fruta e legumes aos sábados de manhã. É um momento que apreciamos verdadeiramente e um programa em família. A Ana leva o seu carrinho das compras e ajuda a escolher os legumes e a procurar as frutas da época. Em casa elogiamos em voz alta a frescura dos vegetais e envolvemos a Ana na preparação de algumas refeições. Começamos sempre por comer sopa pois acreditamos que come-se primeiro melhor porque se está com mais fome, assim, os vegetais nunca falham. Acabamos com fruta, à escolha da Ana. 

 

7- "Se não quiseres comer, tudo bem"

Não, não somos uns anarcas mas na minha terra diz-se que "quem não come, por ter comido, não é doença de perigo". A Ana acorda sempre com fome, toma um bom pequeno almoço, almoça sempre na escola, se não lhe apetece lanchar quando chega a casa (o que é raro), nós não insistimos. Com a certeza de que só volta a comer na refeição seguinte e não há snacks de conforto. Quando não se tem fome, não se come. Ninguém, nesta casa, obriga ninguém a comer. Porque, mais uma vez, não há crianças com comida disponível que morram à fome. Desdramatizemos!

 

 

* Este post partilha as estratégias que, enquanto pais, adoptamos cá em casa. Não são conselhos científicos, verdades absolutas ou receitas infalíveis. Funciona na nossa família e cabe a cada família encontrar as suas formas de gerir as refeições de acordo com as suas dinâmicas familiares e os filhos que lhes calharam em sorte. 

 

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1 comentário

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De Charneca em flor a 05.01.2016 às 00:25

Não tenho experiência pessoal porque não sou mãe mas trabalho na área da saúde e ouço muitas pessoas com problemas em alimentar as crianças. Estas estratégias parecem-me ter todas muita lógica. O principal, quanto a mim, é os pais darem o exemplo.

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