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O luto na infância

por Rui Brasil, em 10.01.16

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 Normalmente as crianças fazem o seu luto de uma forma diferente da dos adultos. Quase todas as que eu conheço tentam não falar sobre a pessoa que morreu como forma de resolverem a sua falta ou como tentativa de fuga do pensamento à experiência nova e dolorosa da perda. Há casos menos frequentes, em que algumas repetem todos os dias que o ente querido morreu, embora este quadro não seja muito comum.

 
De qualquer forma, cada criança reage de forma diferente ao confronto com a morte.  Os diferentes estádios de desenvolvimento em que se encontram, os diferentes tipos de personalidade, o grau de proximidade da pessoa que morreu e a própria “cultura de luto” própria de cada dinâmica familiar serão variáveis concomitantes para as diferentes formas das crianças vivenciarem, construirem uma representação interna da morte e exteriorizarem esta perda.
 
 
Algumas pistas:
 
1. Estar atento a sinais do seu comportamento que sejam diferentes e que podem ser preocupantes (regressões no desenvolvimento, perda de interesse em atividades que costuma gostar de fazer, não querer ir para a escola, dificuldades em dormir ou comer, medo de estar sozinho ou isolar-se muitas vezes dos amigos, imitar o ente querido falecido, etc) 
 
 2. Questionar-lhe sobre o porquê do seu comportamento alterado.  A criança pode não entender o que aconteceu completamente devido a vários factores : 
 
a) a criança já não via a pessoa falecida todos os dias, portanto, pode encarar apenas a morte como uma separação mais prolongada e reversível; 
 
b) esta questão da finitude da vida é de difícil compreensão para crianças pequenas (até 5 anos). Torres (2002) assume “que a criança só concebe a morte como um fenómeno irreversível a partir do estágio das operações concretas, mais ou menos aos sete anos de idade”, sendo que, Machado (2006) acrescenta que “somente entre os nove e os doze anos, na transição da infância para a adolescência, que se interioriza a morte como um fenómeno universal, irreversível e comum a todos os seres vivos”; 
 
c) os desenhos animados em que morrem bonecos, na maioria das vezes, estes depois reaparecem noutros momentos e por isso não é claro o que acontece às pessoas que morrem, não sendo clara a impossibilidade de retorno; 
 
d) há quem vá a Paris e quem vá para o céu… As crianças pequenas vivem o concreto: dizer que um ente querido foi para o céu pode despertar muitas angústias se não se concretizar a definição de céu (os anglo-saxónicos têm duas nomenclaturas para isso, o "heaven" e o "sky" que facilita a compreensão) quer da próxima vez em que a família viaje de avião e a criança demonstre um medo incompreensível de voar (e se o avião for para o céu das pessoas mortas? E se nunca mais voltarem também?) quer pelo facto de ficar aflita caso troveje e chova muito, com medo do ente querido morto viver na tempestade. Atenção ao que se diz às crianças e paciência a explicar-lhe todas as duas dúvidas (outro exemplo típico é dizer que o "avô morreu porque estava doente" o que, por exemplo, pode gerar terror da próxima vez em que a mãe desabafar que está doente -por exemplo, com uma constipação- será que ela também irá morrer?) Desmistifique todas as questões em torno da morte.


Os pais podem questionar a criança diretamente, num momento descontraído e corriqueiro, e logo que veja que ela está a cortar a conversa / pôr uma barreira / não quer responder, não deve insistir. 

Tudo o que hipervalorizamos e damos demasiado ênfase é um sinal de alerta para que as crianças se preocupem e fiquem inseguras quanto à temática. 

 Os pais podem criar um outro momento num outro dia, e voltar a questionar de forma tranquila e serena do tipo “Sabes Matilde, no outro disseste-me que (faz um resumo do que a criança disse acerca do ente querido que morreu e questiona a partir daí)

 3. Voltar a falar sobre a morte, sem pudores nem medos de melindrar a criança. 
 Há livros infantis muito bons que abordam estas questões (fica para um próximo post).

 

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