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O poder do "Não"

por Rui Brasil, em 01.01.16

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 Muitas vezes ouvimos dizer que as crianças de hoje são mal educadas e “mimadas” porque os pais lhes fazem todas as vontades e não sabem dizer que não… Será verdade que os pais de hoje têm mais dificuldade na colocação de limites e regras disciplinares aos filhos? Queremos, de certa forma, ser mais “amigos” do que “pais” dos nossos filhos?

 

 “As crianças de hoje em dia são mal educada e mimadas” é um comentário que ouvimos muitas vezes e em diferentes contextos. As crianças são apenas crianças, alguém que está a estruturar a sua personalidade, a organizar os seus valores e as suas atitudes, e que por isso tenta perceber e dominar ambiente onde se insere. E faz parte deste processo de apropriação o colocar em causa as regras estabelecidas, sobretudo as dos adultos que lhe são próximos. Quando ouvimos este comentário, era importante questionar sobre o que é ser mal educado, e acabamos por perceber que quando éramos pequenos, os adultos também diziam o mesmo sobre nós.

Mas a verdade é que os pais são constantemente desafiados. E os grandes desafiadores não são os seus filhos mas os outros adultos, num mundo onde a informação está à distância de uma atualização de uma página de rede social. O pediatra dos nossos filhos dá o seu palpite sobre como é que deve ser feito, a psicóloga da escola aconselha de outra forma, a pesquisa na internet até dá dicas de como fazer (uma espécie de DIY) e a amiga fala sobre como ocorreu com ela… E nós, enquanto pais, o que queremos para os nossos filhos? Há espaço e tempo para pensarmos realmente o que queremos e o que queremos fazer? E o nosso papel parental?

A resposta é simples: concentremo-nos no nosso papel de pais e educadores. E esse papel passa por estabelecer limites e regras, um colo e um miminho. Quando a regra não é a nossa, é do pediatra, da psicóloga, da internet ou da amiga, não está interiorizada e é externa, e os pais tornam-se pares dos filhos perante esta regra (“os amigos”), e não a sua figura de referência.

 

Qual é a importância do “Não” no estabelecimento de regras, enquanto fator estruturante para a criança? A partir de que idade a criança consegue entender o “Não”? Uma criança que cresce num ambiente demasiado permissivo, sem ser contrariada, vai ter mais dificuldades em adaptar-se mais tarde?

 

 O saber dizer Não é uma das maiores competências que os pais devem ter, tal como o saber dizer “Sim”. Esta docotomia é um dos fatores mais estruturantes da personalidade da criança, nomeadamente ao nível de comportamento, tal  como o Bem e o Mal estão para os valores éticos e o Quente e o Frio para os sentidos. Estas permitem que cada um de nós aprenda a autorregular-se, a posicionar-se perante uma situação, ou a fazer uma escolha.

As palavras devem ser utilizadas desde sempre, para que a criança as ouça e as interiorize para que, ao dominar a linguagem, ela consiga identificá-la a um nível semântico, ou seja, do seu significado.

O ambiente durante a infância, altura de estruturação da personalidade, tem influência direta nos comportamentos enquanto adulto. Os ambientes demasiado permissivos ou demasiado autoritários vão ter impacto na nossa forma de estar enquanto adultos, e segundo estudos da área, vamos ter adultos inseguros, egoístas e com baixa auto estima quando somos demasiado permissivos ou conservadores, sem iniciativa e agressivos quando somos autoritários. Qual o truque? O ponto de equilíbrio. Retirar o melhor do ambiente permissivo (o afeto ou o ouvir a criança) e do ambiente autoritário (regras e a punição) e criar o nosso próprio ambiente de forma a que, no final da vida, olhemos para os nossos filhos e orgulhemo-nos do nosso próprio modelo educativo.

 

Por vezes passamos o dia a dizer “Não” aos nossos filhos (“Não faças isso”, “Não corras”, “Não empurres o teu irmão”…). Isto não se torna cansativo também para eles, passando a ser apenas “música de fundo”?  Será a estratégia de disciplina mais eficaz ou torna-se contraproducente? Que dicas se pode dar a uma mãe ou pai que não quer passar o dia inteiro a parecer um disco riscado, sempre a repetir “Não”, mas que sabe que a sua função passa por estabelecer limites, sobretudo nos casos em que os filhos são grandes “negociadores” e quase levam à exaustão? Qual é a melhor estratégia para se chegar ao equilíbrio? 

Os pais podem e devem desafiar-se. O uso excessivo de uma palavra torna-se uma rotina e não surpreende, e em consequência, banaliza-se e perde o seu valor.

Algumas DICAS

1- As regras devem ser consistentes no tempo

Uma regra é uma regra e deve ser igual sempre. Esta consistência ajuda a criança a organizar-se e a criar uma rotina, sem a qual pode entrar em ansiedade por não dominar o seu contexto. As regras podem conter limite e exceção, como o “vamos para a cama às 9h menos ao sábado que podemos ir às 10h, e os dias de festa contam como sábados”, e por isso a criança já sabe o que é esperado dela e sabe o que contar por parte do adulto.

 

2- Todos os nossos comportamentos têm consequências

Para termos adultos responsáveis e auto confiantes, precisamos de crianças que saibam e tenham interiorizadas as regras e as suas consequências. No processo educativo deve haver espaço para a responsabilização e punição, mas também para a negociação e a recompensas.

3- As regras podem ser positivas

O uso excessivo de uma palavra torna-se uma rotina e não surpreende, e em consequência, perde o seu valor. Se não queremos que o “Não” adquira a natureza de um barulho de fundo (como um carro) porque não colocar as regras pela positiva? “Porque estás a fazer isso?” ou “O que queres fazer?” substitui um “não faças”; “Correr é só no jardim” substitui um “Não corras”; “Queres dizer alguma coisa ao teu irmão?” ou “Porque estás a empurrar o teu irmão?” substitui “Não empurres o teu irmão”. O questionamento da criança é uma estratégia que se revela eficaz, pois ao fazê-lo colocamos a criança num papel ativo de pensar sobre as coisas e não apenas o recetor de uma mensagem negativa, e que ainda por cima, vem colidir com a sua vontade. E nos mementos em que utilizamos o “Não”, este terá um peso completamente diferente.

4- O amor é incondicional, os comportamentos é que são condenáveis.

Ao colocar as regras, muitas vezes recorremos a frases que têm um impacto muito forte na criança. “A mamã fica triste quando tu fazes isso…” é diferente de “A mamã fica triste quando tu és assim..”. O que os pais não gostam é do comportamento que o filho tem em determinada situação, e não dos filhos.

 

 

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