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Sobreviver à emigração

por Rui Brasil, em 06.01.16

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No atual contexto socioeconómico do nosso país, todos conhecemos alguém nas nossas relações que está emigrado ou que pense em emigrar para outros países. E este fenómeno social, predominante nos anos 50 e 60 do século passado em trabalhadores indiferenciados de uma classe média baixa, é neste momento uma realidade para uma classe média e média alta de profissionais qualificados.

 Esta é uma emigração que utiliza companhias aéreas e não foge sorrateiramente pela fronteira, que comunica pelo Skype ou Facebook e não escreve extensas cartas saudosas, que tem um projeto de vida e não emigra sem um propósito concreto, que domina vários idiomas e usufrui da oferta social do novo país e não se fecha em bidonvilles.

 No entanto, esta nova emigração continua a fraturar ou fragilizar relações, torna um dos membros do casal em «mãe solteira» ou famílias em «casais sem filhos».

Um dos quadros mais comuns que cruzam o nosso quotidiano é o do casal entre os 30 e os 40 anos, licenciados, com filhos menores e em que um dos membros adultos (normalmente o homem) emigra.

 Esta decisão, tal como outras que põem em causa o conceito tradicional de família, deve ser partilhada com todos os membros da família, mesmo com os filhos pequenos, pois têm impacto nas vivências e aprendizagens de cada um.

Quem fica (a «mãe solteira»), ganha a consciência da importância de ter alguém como companhia na partilha quer de tarefas quer de afetos. As decisões imediatas sobre os filhos («Toma o xarope ou vamos com ele ao hospital»), a companhia ao serão depois «dos miúdos irem para a cama», a colaboração no quotidiano da família nas idas às compras ou quem põe a roupa a secar, a cooperação na rotina dos filhos («Quem vai buscar os miúdos à escola?» ou «Quem vai com o miúdo ao médico?») ou mesmo a participação nos trabalhos escolares tornam-se exigências que podem levar a um sentimento de sobrecarga ou cansaço.

 Para quem vai («o emigrante») são as saudades das pessoas de quem se gosta, sobretudo família, mas também dos amigos, das rotinas familiares que não existem desde a previsibilidade de ir levar os miúdos à escola e os pequenos-almoços de sábado até ao gelado inesperado numa tarde de inverno, da falta de companhia para as novas experiências, das datas importantes em que não existe o contato físico ou do simples acompanhar o crescimento dos filhos que podem levar a sentimentos de solidão ou ansiedade.

 

 

Para os filhos, resta uma decisão dos adultos, a falta de um colo a mais ou de alguém que faça o contrabalanço em algumas questões, mais um par de mãos para ajudar naquele trabalho de expressão plástica ou no puzzle que nunca mais acaba.

 

Apesar de todos estes aspetos negativos, existem ganhos importantes para a família e que são a chave para o sucesso para as famílias que decidem aventurar-se.

 

As cinco regras de sobrevivência emocional

 

1. A decisão é tomada para o «bem comum» de toda a família

A partir dos 4 anos, todos nós temos a consciência do bem e do mal. Se a decisão de um dos membros da família em emigrar for encarada para o «bem comum» de todos, é mais fácil lidar com a situação. Entre ter um marido e pai desempregado em casa, deprimido e triste, a decisão pela emigração pode ser a mais correta. Para além do bem-estar emocional de um dos adultos, o ganho pelo bem-estar económico da família vale bem o esforço.

 

2. A decisão é tomada entre todos os membros da família

A decisão não é apenas individual mas de todo o grupo. A conversa que define a decisão deve envolver os dois adultos e os filhos, os mais pequenos incluídos, pois apenas com a participação ativa pode haver uma interiorização da nova realidade e uma minimização dos aspetos negativos

 

3. A decisão é tomada com todas as informações detalhadas

Para um esforço emocional tão grande, a decisão deve ter por base todas as informações, sobretudo para os filhos, pois é importante que o adulto não desapareça para um local de que não se sabe nada. A casa onde vai viver, a empresa onde vai trabalhar, o que vai fazer no dia-a-dia são aspetos banais mas que ajudam todos a imaginar a rotina de quem vai estar distante.

 

4. A decisão é tomada com consciência

Os membros da família devem ter consciência que ao tomar a decisão, apesar de contribuir para o «bem comum» e ser tomada com a participação de todos, tem impacto em toda a família: não só o cansaço do adulto que fica, a ansiedade de quem parte, a avó que quer ajudar em tudo ou o avô que agora é o homem da família. E para todas estas situações, a coesão tranquila da família nuclear é fundamental.

 

5. A decisão tomada cria um clima de afetos

Tal como em outras decisões que obrigam a novas configurações familiares, é importante manter os afetos. O adulto que parte gosta muito do adulto que fica, e dos filhos também. E é importante que esta ideia esteja implícita e explícita, pois a imaginação é muito grande na infância e a rebeldia ainda maior na adolescência. Apesar de distantes, os dez minutos diários no Skype em que se pergunta «Como te sentes?» e «Como te correu a escola?» e em que se termina com um «Gosto muito de vocês» pode ser mais importante do que a última consola de jogos ou telemóvel.

 

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