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És especial quando acordas de manhã e me olhas com o espanto de quem me descobre todos os dias. És especial quando páras para observar cada flor, para apanhar cada pedrinha, para fazeres de cada ramo varinhas de condão. És especial quando dialogas contigo mesma, quando sais de ti e te tranformas numa vendedora e numa freguesa, numa princesa e num dragão, numa mocinha e num vilão, numa menina real e nas meninas que habitam todas na tua imaginação. És especial quando te aninhas no meu colo para adormeceres. És especial quando de saia rodada vestida giras sob o teu próprio corpo num movimento egocêntrico de rotação. 

És especial quando agarras em cerejas e as transformas em brincos, quando ficas com a boca suja de morangos no Verão, quando aqueces as mãos a segurar um cartucho de castanhas quentinhas no Outono e quando sorris em dias de chuva porque há poucas coisas mais divertidas que calçar as botas de borracha e pular em poças. És especial porque falas muito, perguntas tudo, concluis tudo o resto e és a pessoa mais perspicaz que conheço. És especial quando acreditas nos poderes curativos dos meus beijinhos nos teus dói-dóis. És especial porque és segura e confiante, não gostas que te manipulem nem que condicionem, porque sabes que ser livre é uma coisa que vem de dentro para fora, És especial quando corres para mim quando te apanho no final dos dias de semana e quando andas pé sobre pé para me acordares com beijos aos sábados de manhã. 

És especial quando contas estrelas nos sinais das minhas costas e ao passares-lhes cremes fazes grafismos. És especial quando achas que o quarto crescente resulta de uma mordidela de um rato na lua. És especial porque gostas de livros e de música jazz à noite. És especial porque ris de forma selecta e tens um humor precocemente sarcástico. És especial quando eu falo das saudades que tenho [todos os dias] dos meus avós e me respondes "mas agora estou cá eu", não porque os substituas mas porque agora estás, efectivamente, cá e não deixas nunca o meu coração ficar com o bolor da saudade e o caruncho da dor. És especial porque foste tu que nasceste de mim, tu e só tu, e não poderia ter sido outra criança diferente porque o meu coração é teu e o teu é meu e seremos uma da outra para sempre. Mesmo quando eu já não estiver por cá. 

 Liliana 

(Hoje o texto é da mãe.)

 

[Desafio: Três parágrafos de escrita escorrida sobre situações concretas em que sentimos o quanto especial são os nossos filhos. Repetir por cada filho que temos. Lermos-lhes em voz alta um dia à noite antes de dormir. Pedir-lhes, no fim, que enumerem 5 coisas pelas quais se sentem especiais. Registar ops 5 aspectos por eles seleccionados e descritos. ]

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Não sei onde li isto mas retive-o na memória para sempre: "A auto-estima é o sistema imunológico do cérebro". Acrescento: "A auto-estima é o sistema imunológico do cérebro e do coração".

Ensinar o seu filho e/ou acompanhá-lo num processo de auto-apreciação e amor próprio é um pilar essencial para a construção e solidificação da sua auto-estima. 

Neste processo é importante que a criança comece, desde cedo, a conhecer-se, a identificar os seus pontos fortes, as suas características positivas assim como a identificar as suas oportunidades de melhoria e as suas características que dificultam o seu dia-a-dia na sua relação consigo mesmos e com os outros. Assim, conhecer-se a si mesmo é a primeira premissa para o alcance de uma boa aute-estima. 

Cabe aos pais ajudar os filhos neste processo, identificando, dando relevo e verbalizando as características positivas ("Partilhaste a tua fatia de bolo com a mana: que generoso que és!" ou "Queres ajudar-me nas tarefas de casa? Oh, és tão prestável!" ou ainda "Gostas mesmo de coisas que te façam rir: és tão divertida! ) e identificando e recentrando as características com oportunidade de melhoria ("Esqueceste-te de fazer as tuas tarefas e foste logo brincar. Para a próxima podias tentar ser mais responsável." ou " O outro menino estava aflito e tu seguiste em frente- Se fosse contigo gostavas que alguém tivesse parado para te ajudar, Para a próxima podes tentar oferecer a tua ajuda, que dizes?). 

É o amor próprio que nos dá a confiança de sabermos quem somos, para onde queremos ir, a dizer que não quando é isso que queremos ou precisamos, a não nos compararmos com os outros mas connosco mesmo e com as pessoas que nos queremos tornar, que nos permite lidar com a frustração e admitir falhar, saber reconhecer e canalizar as nossas forças, saber identificar e trabalhar nas nossas fraquezas, não fazer depender os nossos comportamentos de validação externa ou necessidade de ser aceite, perdoarmo-nos sempre que falhamos ou erramos, comemorar sem falsas modéstias e congratularmo-nos com as nossas próprias vitórias, aceitar que nem toda a gente tem que gostar de nós e saber que, no fim de contas, somos mais que as nossas atitudes e comportamentos isolados e, no final,  que merecemos coisas boas. 

As crianças têm que gostar de si próprias antes de gostarem de qualquer outra pessoa. É o amor-próprio que nos dá segurança para sabermos reconhecer e expressar emoções, sentirmos empatia, termos disponibilidade para ter e dar atenção ao outro e nos relacionarmos com o outro.

 As crianças têm que gostar de si próprias sem esperarem que os outros o façam no seu lugar mas como reforço.  O nosso bem-estar não deve depender do amor dos outros. Ninguém nos deve amar para nos sentirmos bem. O amor dos outros deve apenas ajudar-nos a sentirmo-nos (ainda) melhores. 

Sempre que um filho faz algo meritório cabe aos pais dar reforço positivo, não indiscriminado e generalista, mas direccionado ao acto específico de forma a ancorar o elogio à acção. As crianças necessitam de reforçar, ao longo da sua infância, as noções de bem e de mal, o que são comportamentos positivos e desejáveis em oposição ao que são comportamentos negativos e inaceitáveis, precisam que os seus adultos de referência não lhe digam apenas que é "generoso" mas, antes, que lhe exemplifiquem no dia-a-dia acções próprias que demonstrem a sua generosidade. Precisam que os seus adultos de referência não os cataloguem ou rotulem como "bons ou maus" mas que os ajudem as identificar as características positivas ou negativas das suas acções e reacções. Que reforcem as suas boas acções e que os ajudem a reorientar as suas acções menos positivas, que lhes dêem oportunidades para alterar comportamentos, para errar, para experimentar fazer diferente e que nesse caminho nao duvidem, por um segundo, que aconteça o que acontecer nada beliscará o amor que os pais sentem por ele. 

Precisam que após cada vitória o adulto lhe diga "Boa! Tu mereces coisas boas depois de tanto esforço, trabalho, dedicação ou garra"" e que após cada derrota o adulto lhe ajude a secar as lágrimas e a pensar em conjunto o que se pode fazer diferente, relembrando-o que "Hoje foi mau mas para a próxima será melhor! Afinal, tu mereces coisas boas!"

 As crianças precisam de crescer com a confiança de que merecem coisas boas. Sempre. Independentemente do caminho que percorrerem, dos erros que cometerem, das falhas que incorrerem, dos azares e situações externas e circunstancias que lhes são alheias mas que lhes possam acontecer. 

"Tu mereces coisas boas!" é uma espécie de mantra de hoje e de sempre que deve ser usado como nos casamentos: na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, nas vitórias e nas adversidades, todos os dias das suas vidas. 

 

 

[Desafio: Regra geral os filhos oferecem-nos, amiúde, flores. Apanham-nas, pedem aos pais que as comprem em dias especiais mas oferecem-nos. E que tal invertermos a ordem das coisas? Desafio-vos a pararem no vosso caminho e apanharem um raminho de flores para os vossos filhos. Quando chegarem a casa ponham-nas dentro de uma pequena chávena bonita em cima das respectivas mesas de cabeceira. Quando eles se depararem com a supresa respondam-lhes que é para eles. Porquê? Porque eles merecem coisas boas. ]

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Quando os nossos filhos nascem torna-se, invariavelmentre, nas pessoas mais importantes do Mundo para nós, como se tivessemos uma espécie de epifânia e o amor maior de desvendasse ali à nossa frente, escancarado diante dos nossos olhos, fazendo-nos transbordar o coração. 

No entanto, no nosso dia-a-dia, a azáfama e a correria dos dias faz com que as rotinas e o quotidiano atropelem as famílias. Muitos de nós, pais trabalhadores, levantamo-nos cedo, damos o pequeno almoço aos nossos filhos, deixamo-los a correr nas escolas e viamos para os nossos emprejos, onde chegamos, na maioria das vezes, cedo e já (muito) estafados. Ao final do dia, a correria não é diferente: muitas vezes depois de actividades extra-curriculares, centros de estudo, chegamos a casa e é hora do banho, das tarefas escolares, do jantar e da cama. Nesta equação interferem, muitas vezes, o trânsito, as preocupações, cuidar dos nossos ascendentes, trabalho extra que se traz do escritório ou horários por turnos que nos destabilizam o dia-a-dia. Aos fins-de-semana gastamos grande parte de um dos dias livres a fazer limpezas ou, outra vez, em actividades extra-curriculares ou na vida social dos filhos que acumulam festas de aniversário para as quais andamos (outra vez) sempre em correria.

Não digo que é sempre assim em todas as famílias mas, na maioria das vezes, é este o padrão do dia-a-dia da maioria das famílias que conhecemos ou com quem trabalhamos.

Sobra às famílias- infelizmente- pouco tempo para estar junta, para fazer coisas juntas, para criar momentos de cumplicidade partilhados ou rotinas de tempo livre em comum. 

É quase raro o dia em que, estando a falar ao telefone com uma pessoa amiga, ela não é interrompida por um filho que escolhe aquele momento específico para reclamar a sua atenção. Muitas vezes, em contexto de trabalho, alguns pais acusam alguma falta de paciência face aos pedidos diários dos filhos para se sentarem a brincar com eles (ora, com jantar ao lume, loiça por lavar, TPCs dos filhos mais velhos para supervisionar e toda uma família para gerir, quem tem vontade para "perder tempo" a brincar?).

Sou suspeito porque trabalhei em ludoterapia durante muitos anos mas acredito que, durante a primeira infância, mais importante que aprenderem uma segunda língua, de aprenderem a nadar, de se iniciarem no ballet ou no futebol, os maiores ganhos das crianças a nível emocional (que alavancará todas as suas aprendizagens futuras, mesmo as que dependam do seu potencial cognitivo) dependem do "brincar". 

Sou muito solidário com a azáfama do dia-a-dia de todos os pais. Acredito, com muita convicção, que o maior desafio da parentalidade é este: o da gestão de tempo e de tarefas. E acredito, ainda com mais força, que não há nada mais importante que possamos proporcionar aos nossos filhos do que tempo. Tempo para brincarem, para descobrirem, para aguçarem a curiosidade, para se entediarem, para experimentarem diferentes emoções, para estarem em silêncio e para partilharem com os pais. Mas tempo de qualidade e não apenas tempo. Tempo juntos e não tempo em conjunto. 

 

 

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A auto-estima não é uma competência da qual nascemos dotados nem um conceito estático. Antes pelo contrário, constrói-se, gradualmente, no processo de crescimento e amadurecimento do ser humano. 

Tal como todas as competênciais sociais treina-se e trabalha-se no seu desenvolvimento, no entanto, quanto mais cedo os pais e educadores tiverem consciência do seu papel a este nível, mais assimiladas e consistentes elas se desenvolvem nas crianças, que as incorporam com maior facilidade e sentido de apropriação. 

John Bowlby- um psiquiatra britânico- sugeriu, na sua teoria da vinculação, que o ser humano nasce dotado de um sistema psicobiológico (sistema comportamental de vinculação) que o impele a procurar a proximidade de figuras de vinculação (numa primeira fase a mãe, depois o pai e outros cuidadores primários).  Assim, quando nascemos, para além de precisarmos dos adultos como providenciadores das nossas necessidades básicas (para nos alimentarem, ajudarem-nos a dormir, nos limparem, etc.) precisamos destes cuidadores primários para nos darem atenção e conforto, para nos sentirmos cuidados, protegidos e acarinhados. Para, com eles, aprendermos aquilo que em Psicologia se diz "a gramática dos afectos" para que, ao longo da nossa vida, saibamos falar a "linguagem das emoções." Sem essa aprendizagem inicial o desenvolvimento emocional do ser humano dá-se de uma forma fragilizada e insegura o que persistirá no tempo e se repercuterá no futuro, influenciando potencialmente futuras relações interpessoais.  

O afecto recebido na infância, desde o primeiro dia de vida, é a base da auto-estima e baliza  todos os vínculos que o indivíduo terá na adolescência e na fase adulta,

 

Quando nos nasce um filho bebé para além de satisfazermos todas as necessidades básicas há uma necessidade inconsciente de encontrar posições no nosso colo onde ele se sinta mais confortável ou lhe aliviem as cólicas, de encontrar um ritmo de embalo que o adormeça melhor, de cantar melodias para o acalmar. As crianças têm uma predisposição, desde que nascem, para se relacionarem com os outros e o conforto no contacto directo com a mãe, a partir do nascimento, é a variável de maior relevância no desenvolvimento afectivo e emocional de todos os indivíduos.  

Todas as crianças procuram aprovação, validação, reconhecimento e afecto junto das suas figuras de referência. São as pessoas de quem gostamos, os nossos cuidadores primários, que nos balizam acerca dos  comportamentos desejáveis, que nos dão pistas acerca das nossas atitudes, que dão sentido aos nossos valores e que nos dão feedback acerca do caminho que vamos percorrendo, ajustando-nos sempre que devemos mudar de direcção mas também dando-nos reforço e incentivo sempre que estamos no caminho certo. Sempre que esta aprovação, validação, reconhecimento e afecto são negados ou negligenciados a criança fica sem GPS emocional, sente-se perdida e desorientada, o que inflinge sentimentos de confusão, desajustamento ao meio e, consequentemente, tem efeitos imediatos na auto-estima da mesma. 

Em todas as circunstâncias, mesmo nas mais adversas, a criança deve sentir-se amada, gostada, importada, apoiada e aceite para que a sua auto-estima se desenvolva de forma consistente e estruturada. 

O afecto- não só físico e funcional (as provas de amor: o colo, os beijinhos, os abraços, tanto quanto o cuidar, o alimentar, o preocupar-se, o providenciar-lhe as melhores condições,) mas também o verbal (o dizer "amo-te", todas as palavras de reforço positivo "boa! esforçaste-te imenso!", o tom de voz de conforto-  influencia directamento o desenvolvimento da auto-estima dos nossos filhos e a sua privação pode ter consequências severas na idade adulta.

O auto-conceito, a auto-percepção e a auto-estima alimentam-se, fundamentalmente, de amor. A criança consegue tomar de decisões de forma mais segura, combater medos e receios, resolver problemas, relacionar-se com os outros e assumir riscos com muita mais facilidade quando recebe afecto, percebe o afecto e não tem qualquer dúvida quanto a esse afecto.  

 

 

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Educar para a auto-estima: o mote

por Rui Brasil, em 15.09.16

 

 

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au·to·-es·ti·ma
(auto- + estima)

substantivo feminino

Apreço ou valorização que uma pessoa confere a si própria, permitindo-lhe ter confiança nos próprios actos e pensamentos.


"autoestima", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/autoestima 
 
 

Acredito, com toda a convicão, que o melhor legado que podemos deixar aos nossos filhos e a competência-mor para o seu bem estar e felicidade é o treino e a prática de uma boa auto-estima. 

Treinar os nossos filhos a apreciarem-se a si mesmos e a gostarem de quem são é o melhor preditor da felicidade. 

Uma criança que crescer a gostar de si tem mais confiança para conhecer as suas forças, trabalhar nas suas oportunidades de melhoria, assumir riscos, saber dizer "não", resolver problemas, gerir conflitos, comunicar de forma assertiva, aprender com os seus erros, ser resiliente, tomar decisões e cuidar de si. 

 

Passámos o Verão a trabalhar neste Programa. Usámos os nossos conhecimentos de Psicologia e de Educação mas, essencialmente, a nossa experiência enquanto Pais.


Pesquisámos, estudámos, sistematizámos informação, trouxemos para a luz muitas das práticas pedagogicas que aplicamos nos nossos trabalhos e muitas das práticas empíricas que usamos diariamente com a nossa filha e tentámos torná-las de fácil leitura e percepção para todos os pais.


Não são dicas. Não são prosas de cartilha. Nem são verdades universais. São partilhas de pais para pais e que podem ser úteis a alguns.


Esperamos que vos façam sentido.

 

(O programa sugere 9 acções distribuídas por 3 eixos: dizer, mostrar e ensinar. Durante as próximas semanas sairão posts que abordarão cada princípio. Aguardamos o vosso feedback, sugestões, questões e contributos)

 

 

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