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Vivam as crianças reguilas!

por Rui Brasil, em 19.05.16

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 "As crianças de hoje em dia são mal educada e mimadas” é um comentário que ouvimos muitas vezes e em diferentes contextos. Primeiro há que distinguir má educação de mimo: são coisas que não têm que ver nada uma com a outra. Má educação  é algo a combater e a prevenir; o mimo não só é preciso: é essencial para o crescimento e desenvolvimento afectivo das crianças.

As crianças são apenas crianças, alguém que está a estruturar a sua personalidade, a organizar os seus pensamentos, valores e as suas atitudes, e que por isso tenta perceber, interpretar e dominar o ambiente onde se insere. E incluir-se nele. Posicionar-se no Mundo.

E faz parte deste processo de apropriação o colocar em causa as regras estabelecidas, o negociar, o lutar pela prevalência das suas vontades e desejos (até porque as crianças são inatamente egocêntricas), num constante desafio face aos  adultos que lhe são próximos. Quando ouvimos este comentário, era importante questionar sobre o que é ser mal educado. É desafiar regras impostas? É lutar pela satisfação das suas necessidades imediatas? É manifestar-se emocionalmente face a situações que não vão de encontro aos seus desejos?

Depois há que distinguir o que é ser mal educado e o que é, como se dizia quando nós éramos pequenos, “reguila”, esta palavra tão pouco em voga nos dias de hoje. Já repararam que hoje não há miúdos “traquinas”, “reguilas”? São todos catalogados de “mal educados”.

 

Ser reguila é positivo, assenta na ideia de destemor, de não ter medo de explorar o mundo, de expressar emoções. Devíamos educar mais miúdos reguilas. Miúdos reguilas que sabem ouvir não, que aprendem a lidar com a frustração, que sabem que as suas necessidades e desejos não podem ser todos atendidos nem atendidos, mesmo que parcialmente, todos no imediato. Os miúdos têm que saber aprender a esperar.

Mas a verdade é que os pais são constantemente desafiados. E os grandes desafiadores não são os seus filhos mas os outros adultos, num mundo onde a informação está à distância de uma atualização de uma página de rede social, onde tudo acontece no imediato e onde os “crescidos” deixaram de saber esperar, também.

 O pediatra dos nossos filhos dá o seu palpite sobre como é que deve ser feito. Mas os pais não a questionam, não a incorporam ou adaptam. Procuram no minuto a seguir informação no google numa óptica de DIY, seguem o conselho da psicóloga da escola que aponta noutra direcção e, ainda, arriscam em simultâneo a estratégia da amiga que diz como fez com os seus próprios filhos. Têm dificuldade em estabelecer, eles próprios, as suas regras, suas, próprias, com o recurso a algumas figuras de confiança e de referência mas, efectivamente, as suas regras.

E nós, enquanto pais, o que queremos para os nossos filhos? Há espaço e, especialmente, tempo para pensarmos realmente o que queremos e o que queremos fazer? Para delinearmos uma estratégias? Um plano? Para nos orientarmos no nosso papel parental?

A resposta é simples: concentremo-nos no nosso papel de pais e educadores. E esse papel passa por educar com tempo, com paciência, estabelecendo limites e regras de forma consistente e sem contradições,  sem nunca deixar de dar um colo e um miminho.

Quando a regra não é a nossa,temos que a incorporar em nós. Ninguém sabe ou pode educar os seus filhos com maior preparação que os seus próprios pais.

Porque se as regras para educar não são nossas, mas dos especialistas, dos gurus da psicologia ou da educação ou da saúde infantil, e não as incorporarmos; se são as regras do pediatra, da  da psicóloga, da internet ou da amiga, não estão interiorizadas e são externas, e os pais tornam-se pares dos filhos perante esta regra (“os amigos”), e não a sua figura de referência. E de autoridade. Porque os pais têm que ser pais e não amigos. Têm que impôr, ditar, estabelecer regras e limites, definir orientações, apontar estratégias. Não têm que pedir por favor aos meninos que aprendam a ser gente ao longo do seu crescimento: têm que fazer deles gente. Com tantas regras quanto amor.

 

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