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 Não obrigo a Ana a dar beijinho e abraços a adultos (em bom rigor a ninguém). Nem obrigo a ir ao colo nem nada que invada " a sua bolha". Entendo que não sou dono do corpo dela. Obviamente que ela deve tratar as pessoas todas com respeito mas isso não contempla necessariamente demonstrar afecto físico para as agradar. O seu corpo é sua propriedade privada e incentivo-a, desde cedo, a ouvir a sua intuição: se se sente confortável e por iniciativa própria lhe apetece cumprimentar com um beijinho ou um abraço uma pessoa, tudo bem; se não se sente confortável e não o faz, tudo bem também.

Quero que, desde idade tenra, não se sinta pressionada a ceder quanto a esta tema por imposição de ninguém, incluindo minha ou da mãe. Quando eu dou a entender à minha filha que ela tem que preterir a sua própria vontade face ao seu próprio corpo para não melindrar um adulto, estou a dar-lhe a entender que a sua vontade face ao seu corpo vale menos que o que é que é socialmente desejável que ela faça com o seu corpo, tendo que ceder, mesmo que se sinta desconfortável com isso. Agora, é extrapolar isto para situações futuras e perceber que informação estamos a passar para os nossos filhos. A Ana deve aprender que não vale tudo para ser aceite socialmente. Estou, de forma muito básica, a dar-lhe inputs para que, um dia mais tarde, ela não tenha que perder a virgindade se não se sentir preparada para agradar ou ser mais gostada por um namorado nem tenha que ser "maria vai com as outras" para se sentir valorizada e pertença a um grupo de amigas, contriando aquilo em que acredita e indo contra os seus instintos. 

Já para não falar que nos casos de abuso sexual de menores a grande maioria dos casos acontece com predadores que são conhecidos das crianças e das famílias e não propriamente estranhos. Dizer-lhe que tem que tocar em pessoas que ela não quer tocar vai deixá-la mais vulnerável para eventuais ou hipotéticos abusadores. Mas... e se recusar um beijinho à avó, não insistes? Não. A necessidade de afecto ou de ego dos outros não se pode sobrepôr à liberdade da Ana ser dona do seu corpo nem tem que implicar que ela o sacrifique para agradar a ninguém. A premissa é sempre a mesma: a Ana não tem que usar o seu corpo para agradar ninguém e os outros têm que perceber isso. Hoje a avó, amanhã um namorado.

A Ana só tem que se escutar a si mesma, de entender o que a faz sentir-se confortável e agir em conformidade. Os adultos ficam ofendidos? Problema dos adultos. Os adultos têm que ter racionalidade para entenderem que o corpo das crianças não é público e que a sua vontade conta. Os adultos não têm que ser educados por mim. Os adultos não são meus filhos. 

 

Para começar eu sempre fui extrovertida e sociável. Sempre preferi adultos a outras crianças e nunca à minha mãe foi colocada esta questão porque eu, por livre iniciativa, cumprimentava efusivamente com beijinhos e abraços todos os adultos. Os que não me deixavam confortáveis não eram excepção, eram as regras da boa educação e eu não questionava. Por isso, a primeira vez que esta discussão se colocou cá em casa fiquei a achar que era demasiada intelectualização: ela tem que ter modos e acabou a conversa. Sim, tem que dizer olá. Sim, quando chega a um sítio tem que dar beijinhos e cumprimentar. Sim, tem que ser educada porque vive em sociedade e tem que ceder às regras sociais, sim! Era mais o que faltava agora chegar a casa da avó e não a cumprimentar, onde é que isto já se viu? Mas a Ana nem sempre está nessa disposição. E comecei a prestar mais atenção ao seu desconforto físico em determinadas situações e a olhar para mim no presente: hoje em dia também não sou uma pessoa de abracinhos e de toques. Não gosto nem preciso para demonstrar afecto às pessoas que gosto. Então, porque estava a obrigar a Ana a fazê-lo? Mea culpa. O pai era capaz de ter razão. 

 

Veredicto:

Não obrigamos a Ana a tocar em ninguém, a abraçar ou a beijar estranhos ou conhecidos. Se ela se sentir confortável, por inciativa própria, fá-lo-á. Se não se sentir não é obrigada a fazê-lo. Tudo bem em ambas as situações. 

Mas ter modos e ser educada pode ter outras formas de expressão: quando chega a um sítio diz "olá" e convidamo-la a acenar. Quando se despede diz "adeus" e pode, eventualmente, atirar um beijinho com a  mão. Diz sempre "obrigada" e "por favor". Por inciativa própria diz-nos "I love you" quando se despede de quem gosta mesmo e os adultos respondem-lhe de igual forma.  

O corpo da Ana é propriedade dela. E nisso ninguém manda. 

 

 

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