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Sou a favor do co-sleeping desde sempre. Conheço todos os argumentos contra a prática, conheço as recomendações da Academia Americana de Pediatria sobre a segurança do sono e a redução do risco de morte súbita do lactante e de como o co-sleeping é apontado como um fator de risco e, por isso, é uma prática “não recomendada”. Li também que isto se verifica, na maioria dos casos, em casos onde os pais bebam, fumem ou consumam drogas ilegais. Documentei-me de toda a informação pertinente, que o risco de morte súbida do lactante pode relacionado com o sobreaquecimento do meio e que  Para prevenir isto deve usar o bom senso e adequar a temperatura do quarto, a roupa do bebé e a roupa da cama à estação do ano e ao lugar que habita. Defendo, desde sempre, a proximidade entre bebé e pais, noites mais tranquilas para toda a família e conveniência em termos de alimentação nocturna (no nosso caso tratou-se de alimentação a leite adaptado e não amamentação, e quer eu quer a mãe achámos muito prático pegar no biberão e dar-lho sem a despertarmos completamente ali mesmo à nossa beira). Todos os argumentos como menor possibilidade de intimidade sexual entre o casal ou dificuldade em que a criança depois entenda que tem que se autonomizar e passar para a sua própria cama foram rebatidos por mim (os casais podem ter tempos e espaços difeentes no que concerne à sua intimidade sexual e, cito sempre o Dr. Pedro Caldeira, famoso pedopsiquiatra, que numa conferência respondeu que "não se vêem adolescentes a querer dormir com os pais, pois não? Um dia, todos os miúdos, mais tarde ou mais cedo, vão querer reclamar a sua própria cama!"). 

Emocionalmente ou não, de forma egoísta e pouco cerebral, não sei, eu não queria saber, mas eu queria a nossa bebé ali pertinho de nós.

Queria que ela sentisse o nosso calor, a nossa companhia, a segurança de que estávamos ali ao lado em caso de precisar de conforto, mimo ou protecção. Ou apenas companhia. Queria, também eu, estar seguro de ouviria o mínimo choro, o mais reduto engasgar, um pequeno gemido, todos os sinais emitidos por ela de que precisaria da nossa intervenção. Fui apelidado de "maricas", "pai galinha" e outros mimos. Queria acordar com o palrar dela e ficar no mimo de manhã a brincar com as suas mãozinhas. Queria senti-la ali ao lado a aconchegar-se a nós. Queria também conveniência para nós- não termos que nos levantar para lhe apanhar a chucha, a tapar, lhe dar o xarope ou acalmá-la se chorasse. Queria uma noite o mais tranquila possível para todos. Se eu gosto da companhia da minha mulher para dormir, se gosto de adormecer a fazer cadeirinha, se gosto de me aconchegar, se gosto de partilhar a cama com ela e sou adulto, como não há-de uma criança apreciar o mesmo? Para mim, co-sleeping planeado e em prática desde o dia 1!

Sempre fui manifestamente contra. Para além do risco de sobre-aquecimento por parte do bebé, das possibilidades de asfixia e de esmagamento, do encorajamento pela dependência física dos pais e, consequente, stress perante a ausência física dos mesmos, acreditava que os pais precisavam do seu espaço físico como casal e que a cama era o último reduto. Para além de que o argumento da facilidade na alimentação não ser válido, pois eu não iria amamentar. 
Também tinha medo de ter um sono muito profundo, muito mexido e de a poder magoar. Com todas estas certezas e teorias, apesar do tema ser motivo de conversa frequente cá em casa, nunca foi de discussão. Sabíamos que, tal como quase tudo na maternidade, todas as filosofias, crenças e certezas (não assim tanto) absolutas só se iriam pôr em prática (ou não) quando a cria nascesse. E assim foi. 
Quando estava grávida uma leitora do meu blog escreveu-me qualquer coisa como "Eu antes tinha certezas. Depois tive filhos!". na altura, muito hormonal e casmurra, fiquei despeitada. "Mas as mulheres ficam todas tantans quando são mães? Mas deixam de ter convicções? Mas... Mas...?". Ela tinha razão. 
A Ana nasceu prematura, às 34 semanas. Assim que saiu da minha barriga, e estávamos em pleno Verão, gemia, literalmente, de frio. Depois das primeiras duas horas a ser mimada e lambida por mim e pelo pai, os médicos optaram por colocá-la um par de horas na incubadora, para poder ser aquecida. A miúda tremia de frio. E eu fiquei numa angústia sem fim por não a poder ter ali ao lado, ainda que durante duas horas apenas. 
Nessa noite, a primeira em que ficámos sozinhas no quarto da maternidade, a Ana dormitava ali ao lado, no berço. Um sono levezinho, intercalado, por um gemer de frio. Eu, sem dormir, a adorá-la, achei que não ia aborrecer a enfermeira e que, afinal, a filha era minha. Agarrei-a, desajeitada, e pu-la a dormir em cima do meu peito. A bichinha, assim que aterrou em cima de mim, suspirou. literalmente. Um suspiro profundo, de alívio, de reconhecimento, um suspiro de chegar a casa e descalçar os sapatos, de abrir a porta da rua e aterrar no sofá, um suspiro de alívio. 
E aquele foi o nosso primeiro pequeno segredo. Todas as noites em que estive na maternidade, as luzes dos corredores baixavam, a enfermeira ia fazer a ronda da noite, invariavelmente, ficava ali comigo um bocadinho na conversa, aconchegava a Ana no cobertor , aumentava a temperatura no ar condicionado, comentava o quão a bebé era friorenta e saía. Assim que ela saía, eu resgatava a Ana e colocava-a a dormir em cima do meu peito e, sempre se cumpria aquele suspiro de quem chegou a casa. A Ana dormia a noite toda como um anjo em cima de mim. Eu não pregava olho, com medo de algo de mal lhe acontecer, neurótica num estado de vigília que só se vive depois de se ser mãe. Mas confortada com aquele abraço nocturno, aquele toque de pele, calor umbilical.
Na primeira noite em casa, o pai fez como exigido por mim combinado antes do parto. Chegou a hora do sono e colocou a Ana na sua caminha. Eu, quis-me fazer de forte, e fui-me deitar com ele no quarto ao lado. Primeiros 5 minutos  e ele foi vê-la. Ficou ali meia hora a contemplá-la na caminha. Voltou, com um ar intrigado, e disse-me "ela tem frio". Respondi-lhe- armada em forte- que lhe reforçasse a roupa da cama e ele assim fez. Voltou para a cama. Cinco minutos depois, levantei-me eu, ainda dorida dos pontos da cesariana. A Ana dormia, fiz-lhe uma festinha. O pai foi ter comigo e ficámos ali uma boa hora e meia, de pé, tipo os reis magos a adorar o menino Jesus. Voltámos para a cama.
 -"O intercomunicador estará bem ligado?"- perguntou-me. Voltámos a levantar-nos. Mais uns quinze minutos a vê-la dormir. Estávamos aterrorizados de receio, medo de a perder de vista, de não a vigiar, de não conseguir impedir que algo de mal lhe acontecesse. Racionalidade zero. A miúda estava bem, só precisava de ser acordada dentro de quinze minutos para comer (como prematura, a Ana não acordava nem chorava para comer, tínhamos que ser nós, de duas em duas horas, a incentivá-la a comer uns míseros 30 gramas de leite). 
Passados os quinze minutos levantou-se ele. Sentou-se na cadeira no quarto dela e deu-lhe biberão. Assim que a pegou ao colo, ela suspirou. Meteu a boca no intercomunicador "Ouviste??? Ela suspirou!". Sim, tinha ouvido. Era oficial: a miúda, 35 semanas de gente, adorava um bom colo, adorava contacto físico, calor, mimo. 
Trouxe-a para a cama para o meio de nós. "É só um bocadinho, até passarem mais duas horas, para voltar a comer, vá!"- suplicou-me. Eu, com ar de condescendente ("mortinha" que estava!), assenti. 
E nunca mais de lá saiu até ela própria reclamar a sua caminha, muuuito tempo depois. 
Vantagens que hoje, quase convertida que estou ao co-sleeping, identifico: para pais ansiosos (como nós) permite uma sensação de vigília constante e controlo presencial do bebé, o contacto físico entre pais e bebés é muito interessante (o cheirinho que ela me deixava nos lençóis é impagável!), é cómodo no Inverno não termos que nos levantar, bastando agarrar no biberão, sentarmo-nos a cabeceira da cama e alimentarmos a criança, voltando-nos a deitar logo de seguida, permite sonos menos leves porque estando o bebé ali ao lado os sentidos não precisam de estar tão apurados como estando a criança num espaço físico diferente e, o melhor argumento, é que é bom. Todos adormecíamos quentinhos, agarradinhos e felizes.
Desvantagens que senti: os bebés ocupam demasiado espaço e mexem-se imenso e, por vezes, o nosso descanso físico pode ser afectado pela redução do espaço da cama. 
Para que conste nas discussões metafísicas e com os meus colegas psicólogos: continuo contra o co-sleeping. Eu nem queria nem nada. Eu nem gosto. Só aderimos mesmo porque o meu marido insistiu... E porque a outra miúda cá de casa domina, desde sempre, a maravilhosa arte da manipulação. Continua a suspirar tããão bem! ;)
 

Veredicto:

A decisão foi consciente e assumida desde a primeira noite em casa: iriamos praticar co-sleeping durante toda a noite, todas as noites até deixar de ser confortável para uma das partes. A Ana sentiu-se segura (sabia que adormecia e acordava connosco e isso tranquilizava-a) desde sempre e manteve um padrão de sono bastante satisfatório e contínuo (a partir dos 2 meses de idade dormia, no mínimo, 8 horas por noite) não despertando nem quando tinha que ser alimentada por algum de nós) até aos dias de hoje. A alimentação era bastante fácil quer para mim quer para a mãe, permitindo-nos acordar sem despertar realmente, o que garantiu durante o primeiro ano uma sensação de descanso mais plena da nossa parte. A nossa intimidade enquanto casal nunca foi perturbada pela opção do co-sleeping. O desconforto em algumas noites em que a Ana estava particularmente mexida compensava o facto de dormirmos sem termos que estar num semi-estado de alerta que teríamos que adoptar caso ela dormisse, desde logo, no seu quarto. Quando passou para a sua cama, já era autónoma, já pegava na chucha, já falava e já andava, podendo sair da sua cama e dirigir-se à nossa, sem ter sensação de estar presa numa cama de grades e , por conseguinte, receio ou medo de não controlar a situação. A transição foi gradual, mas a decisão de passar para a sua cama foi da própria Ana que, após termos colocado um dossel com luzes no quarto no dia do seu aniversário, decidiu que já era hora de ter uma cama de princesa só para si. Não insistimos que a decisão seria irrevogável e apoiámos e reforçámos positivamente a sua decisão mas sem a pressionarmos. Criámos rotinas nesta nova dinâmica: ligamos as luzes do dossel, um dos pais acompanha a Ana e conta uma história ou canta, eu oro com ela, apagamos as luzes, ligamos o candeeiro das estrelas, desejamos boa noite e saímos do quarto, deixando a porta aberta para ela ter a certeza de que se pode levantar a qualquer altura e procurar-nos nas outras divisões da casa, o que acontece muito raramente (e quando acontece e nos pede guarida na nossa cama acedemos, sem dramas nem cobranças.) A Ana sabe, aos três anos e meio, que cada um tem o seu quarto e cama, percebe a importância de ser uma crescida e a importância de ter uma cama de princesa própria mas também sabe que, se por qualquer motivo que lhe pareça válido, quiser vir ter connosco à nossa cama, não há qualquer objecção face a isso. Mas a nossa cama não tem dossel, nem luzes nem a mínima graça. Essa é que é essa. 

 

 

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De na primeira pessoa do singular a 10.02.2016 às 11:51

Quando a mais velha nasceu, ficou ali no berço encostado à cama. Era Verão. Como amamentei e o berço era fundo, tornava-se doloroso tirá-la depois de uma cesariana. Passou a vir para a nossa cama. Porque sim, porque era bom, porque ficávamos ali a olhar para ela, porque veio o inverno e não era preciso sair da cama.
Dois anos depois nasceu a outra. Já tentáramos tirar a Rita da nossa cama, e isso significava muitas horas ou noites a dormir no chão ao lado da cama dela...
Repetímos a dose, ficaram as duas a dormir connosco. O pai dorme bem, a Rita dorme bem, a mãe vai trabalhar e continua a amamentar de duas em duas horas durante a noite até aos 12 meses da cachopa e dorme mal. Mas é delicioso na memsa.
Quando a mais nova fez 2 anos, fomos a uma loja, escolheram um beliche colorido, edredons da hello kitty, e desde esse dia, passaram a dormir no quarto delas todas as noites. Ou quase todas, sem grandes stresses nem chatices.
Mas as duas sempre foram bebés que adormeciam ao colo.
Anos e anos mais tarde tivemos o nosso Miguel. Estranhamente, adormecia no berço encostado à minha cama e dormia a noite toda. Maravilha. Estava ali, sem estar no meio do pai e da mãe. A mãe continuava a dormir mal, mas isso já era hábito...
Mas aos 7 meses o cachopo começou a levantar-se. E aos 9 começou a andar. O berço ficou perigoso, foi para a cama de grades, que se transformou num parque de diversões durante a noite. Veio recambiado para a nossa cama, e agora é dono dela. Tem 15 meses, dorme destapado, e mexe-se estupidamente entre as 3 e as 5 da manhã. Dorme enchouriçado dentro de pijamas e camisolas e meias e sei lá mais o quê. O pai continua a dormir bem, o filho não se queixa, a mãe continua a dormir mal. Mas é super confortável tê-lo ali.
Já não é assim tão confortável quando tudo se enfia lá na cama. 1,60m de largo já não dá para todos!

Não me lembro de os sufocar, magoar, não me parece que sejam dependentes, inseguros, xoninhas...tenho 3 filhos diferentes, que variam do muito meigo ao mau feitio total conforme a situação e a hora do dia.

Se tivesse outro, ia também para a nossa cama, o tempo que for preciso até estarmos TODOS confortáveis com a situação do bebé dormir sozinho na sua cama, no seu quarto.

Pai e mãe? enquanto os pés se tocarem no fundo da cama, é como se estivéssemos abraçados em conchinha. E que diabo, o apartamento é pequeno, mas não existe só nosso quarto!
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De Mulher de saia a 10.02.2016 às 11:56

Obrigada por este post lindissimo, Rui. Aqueceu-me o coraçao.
Tomei a liberdar de o referir no meu blog. Mesmo que ninguem o leia, certifico-me de que nos proximos tempos, nao me esqueço daquilo em que acredito.

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