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 O meu modelo parental masculino era frágil. Criado numa dinâmica familiar altamente matriarcal e feminina o meu modelo de referência masculino, maioritariamente ausente e workhahoolic, nunca foi encarado por mim como um modelo de referência. 

Quando cresci reconciliei-me com o meu pai. Não que alguma vez tivéssemos estado zangados, nada disso. Mas com o atingir da idade adulta empatizei mais com o homem para além do pai e com as motivações, anseios e desejos que o levaram a tomar uma série de atitudes com as quais nunca concordei. Continuo a não concordar com algumas mas compreendo-as agora, o que facilita a que as aceite e empatize com o meu pai. Em Psicologia aprendemos uma premissa básica que repetimos várias vezes cá em casa "cada um faz o melhor que sabe com o recursos que tem".

Dizia eu que cresci com a certeza que seria um pai oposto, ou pelo menos muito diferente, do meu pai. Sou-o em muitas coisas, não tantas quanto previ. De vez em quando lá dou por ele em mim: atitudes pequeninas, frases feitas e reproduzidas, reacções irreflectidas e familiares e o meu pai muitas vezes presente no meu papel parental, especialmente em muitas das coisas que sempre critiquei e achei que faria diferente. 

Quanto criticamos os nossos pais assumimos uma espécie de compulsão, de necessidade de provar a nós próprios (e ao Mundo) que somos diferentes como se por pertencermos à geração seguinte tivéssemos que estar mais preparados, mais prontos, mais aperfeiçoados e num patamar educacional superior e irrepreensível. 

 

Muitas vezes acreditei que seria um melhor pai se estivesse no lugar do meu pai. Não apenas diferente mas melhor. Eu desempenharia muito melhor o papel do meu pai, estava convicto. Mas a questão é que eu não sou o meu pai. Sou o pai da Ana. E estou pela primeira vez a ser pai tal como o meu pai o estava a ser comigo. E não aprendo com os erros do meu pai porque as circunstâncias, os estímulos e o contexto onde desenvolvo a minha parentalidade não são sequer comparáveis aos do meu pai. E não, não consigo ser melhor pai que ele. 

Acrescento até que dou por mim, muitas vezes, a fazer os mesmos erros, a cair nas mesmas falácias. a fazer exactamente o mesmo que criticava nele. Repito muitas vezes (mais do que seria desejável) os erros dele não porque não tenha mais informação, mais recursos, mais ferramentas e estratégias mas porque sou um homem. Um mero homem que tenta dar o seu melhor mas que tem referências, emoções e possibilidades de erras semelhantes às dele. 

O ser humano não é uma tábua rasa. O contexto, o meio, as experiências constroem-nos mas há muito de carga genética que não pode ser desprezado. Eu faço melhor que o meu pai em algumas coisas, as que eu consigo racionalizar e pensar, planear e reflectir. Noutras sou apenas eu, impulso e natureza, uma pessoa com um registo educacional que se tornou modelo de referência e que emerge em inúmeras situações.

Reconheço, hoje, a frase de Shakespeare num poema que temos emoldurado cá em casa, que diz qualquer coisa como "You learn that there are more from you parents inside you than you thought". Os portugueses resumem-no de uma forma muito mais prática "Filho és, pai serás". E sou. 

 

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