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Em nome do Pai

Paternidade na ótica do utilizador.

Em nome do Pai

Paternidade na ótica do utilizador.

A Ana- a minha filha- é uma pessoa (A voz do pai. Psicólogo, mas sobretudo pai...)

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Oiço (e leio) de tudo nas mais variadas conversas e contextos sobre crianças: a "pessoinha", "a mini-pessoa", "o mini-me", "o homenzinho", "a senhorinha". Uma vez num restaurante, num grupo de 5 amigos e uma criança, uma amiga nossa respondeu à pergunta mesa para quantos com um "cinco e meio". Na maioria das vezes não reflectimos sobre estas formas de tratamento, grande parte das ocasiões circunstanciais e aleatórias, reprodução dos modelos com que crescemos e que nos habituámos a não reflectir ou questionar. 

 

Isto para dizer que desde que nasceu a Ana, a minha filha, desde esse primeiro dia, mesmo com dois quilos seiscentos e trinta e cinco gramas, que olho para ela como pessoa inteira. A partir daí, lá em casa, passámos a ser três. Três inteiros. 

 

Como pessoa que ela é, passei a questionar uma série de convenções sociais (e algumas regionais porque, como se sabe, sou açoriano e há alguma rigidez no tratamento às crianças nas ilhas que não se aplica aqui no Continente onde vivo) e de normas, hábitos formais e informais e convenções sociais sempre sob a luz dessa premissa- "a Ana é uma pessoa". 

 

Na minha terra (no tempo em que eu deixei a minha terra) as crianças eram muito queridas pela comunidade mas tradicionalmente não estavam ao mesmo nível dos adultos, impondo-se, por exemplo, esse patamar de diferenciação (atrevo-me a dizer até de hierarquia) no tratamento verbal- todas as crianças tratam os adultos não por "Tu", muito menos por "você" mas sim por "senhor" ou "a senhora" (vale para tudo: se uma pessoa mais velha nos chama não dizemos "diga!" ou "ahn?" mas antes "sim, senhor?" / "diga, senhora?"). Nunca me questionei, reproduzi o modelo até vir para a universidade e mover-me num meio em que finalmente percebi que o uso do "tu" ou do "você" ou do "nome da pessoa" não ditam um maior grau de educação e passei a poder usá-los como acho mais conveniente. 

 

Cá em casa tratamo-nos todos por "tu" (podia ser por "você" desde que o tratamento fosse transversal a todos os membros da família e não impusesse informalmente hierarquias familiares). Todos. Avós incluídos, o que se por um lado não causou qualquer estranheza à minha sogra, numa primeira fase o tenha feito aos meus pais, já avós de uma neta que os trata por "senhor/senhora" e agora de uma Ana que os trata educadamente por "tu". Neste Verão passámos quase um mês juntos e embora o tratamento a este nível seja díspar por parte netas (e aqui o meu irmão saberá dos códigos que quer para a filha dele e eu dos que quero para a minha e tudo bem, sem qualquer stress), não foi claramente diferenciador do grau de educação e afecto com que ambas tratam os avós. E todos confortáveis com isso. 

 

Há outros sinais inequívocos disto que levo muito a sério da minha filha ser uma pessoa inteira com tantos direitos e deveres como qualquer outra pessoa, incluindo adultos. O exemplo mais forte é que nós não lhe batemos. Zero. Nem uma palmada, nem um calduço ou uma belinha, muito menos uma bofetada. Zero castigos físicos. E isto nem sequer foi negociável ou motivo de discussão para nós enquanto casal. Não acreditamos na violência, na obediência firmada à base do medo pela punição física e na educação pelo medo. E se não andamos a bater nas pessoas em geral porque elas não  concordam connosco, têm atitudes que nos chocam ou são apenas imbecis porque o haveríamos de fazer com uma pessoa que ainda está a aprender os códigos e a vida (e a aprender connosco, ainda por cima!) e que, não por acaso, é a pessoa por quem mais afecto nutrimos no Mundo? Isto faz algum sentido? Eu bato ao meu irmão quando discordamos? A minha mãe bate-me a mim? Então porque raios deveria eu achar normal bater à minha filha, pessoa inteira, não pessoa em miniatura com direitos e deveres redimensionados? 

 

Finalmente, chegamos à vaca fria e à questão dos beijinhos. Já aqui escrevi quase tudo o que achei pertinente sobre o assunto mas deixo só mais alguns apontamentos, com base na minha experiência pessoal enquanto pai. 

 

A Ana é uma miúda educada regra-geral (eu também, regra geral, não digo sempre porque ninguém é educado sempre e há muitos contextos e situações específicas desafiantes para todos). Diz "olá", "bom dia", "boa tarde" e acena "adeus" quando se vai embora. Do ponto de vista das normas sociais corresponde: diz "obrigada", pede "por favor", come de boca fechada e sem os cotovelos na mesa, pede "desculpas", espera pela sua vez para falar em contexto de grupo, entre outras aquisições "sociais".

 

Comecemos por fazer o disclaimer- é importante sensibilizar para uma educação de afectos. Os pais desde o primeiro dia de vida da criança que tocam nela, dão beijinhos, abraçam, fazem festinhas como forma e expressão do cuidado e do amor. É num ambiente de contenção afectiva que se espera que a criança cresça, onde as expressões físicas de afecto como dar beijinhos e abraços é geralmente ensinada e incentivada. Eu dou beijos à minha filha desde que ela nasceu porque devemos ensinar aos filhos as várias expressões de afecto. Também lhe digo bom dia quando a acordo de manhã, cozinho os seus pratos preferidos, também lhe faço desenhos para a ver feliz e lhe demonstro publicamente o meu amor das mais diversas formas, para além da física. As manifestações podem ser feitas de tantas formas, afinal...

 

Mas, mesmo bebé, se a apertava a dar beijinhos ou não tinha a barba convenientemente desfeita e ela se queixava com linguagem não verbal, afastava-me de imediato porque a estava a incomodar e a ser intrusivo. Sempre que ela, agora com seis anos, me permite o contacto físico ou o procura, eu dou beijinhos, abraços e festinhas e tudo. Funciona assim. Sempre que o faz espontaneamente aos avós damos reforço positivo e incentivamos os adultos a demonstrar gratidão e reciprocidade pela deferência. Porque é uma escolha e não uma obrigação. É importante incentivarmos o afecto- não necessariamente físico- mas não podemos ignorar que "o sentir" não se impõe. Portanto, no limite, quando ela diz que não quer, não é não, e nós respeitamos escrupulosamente.  

 

O que acontece é que a Ana, regra geral, não dá beijinhos. Não dá. Não gosta.

E nós não a obrigamos.  

 

A maioria das pessoas estranha (ou talvez não, há sempre aquele ideia de que os "pais psicólogos e as teorias progressistas, enfim, é dar desconto...;)" ) não o facto da Ana não querer dar beijinhos (na realidade muitas  crianças fazem resistência passiva face a este tema) mas o facto de nós não impormos à Ana que dê beijinhos. Acontece que a Ana é uma pessoa com autoderminação física e pessoal que deve conhecer os limites pessoais em redor dessa determinação. E nós queremos, desde sempre, ensiná-la que o seu corpo é seu e obedece à sua vontade e que não deve ser usado de forma leviana ou contra o seu desejo pessoal. A Ana pessoa, como eu, a mãe e quem me está a ler tem direito a decidir sobre o seu corpo e o direito de exigir que as outras pessoas o respeitem. 

 

As crianças, como aliás, todos os os adultos, têm diferentes níveis de tolerância ao contacto físico. Portanto se não se sente confortável em demostrar afecto físico, tocar com os seus lábios na cara de outra pessoa ou deixar os lábios de outra pessoa tocarem no seu rosto (beijar), tocar com o seu tronco e peito no tronco e peito de outra pessoa (abraçar), sentir-se apertada ao invés de aconchegada nos braços de alguém, se tudo isto lhe causa desconforto então NÃO avança. E como não queremos ser intrusivos nem inconvenientes com a Ana passamos a estar TODOS muito bem com essa decisão porque a respeitamos como pessoa que é. Mesmo os avós, quando lhes explicámos isto e porque são pessoas que não se importam de desconstruir os padrões e normas do socialmente desejável e do politicamente correcto que nos foram incutidos a todos desde criança. 

 

E se ela quer dar a umas pessoas e não a outras, tudo bem também, que os pais e os seus adultos de referência também não cumprimentam de forma igual e indiscriminada todas as pessoas sejam elas mais ou menos próximas. E quem define este critério é a própria Ana porque, afinal, todas as pessoas têm direito a escolher a quem querem dar beijinhos, xi corações, hi fives, apertos de mão ou sorrisos. Não tem que dar a todas. Na mais absoluta verdade, não tem que dar a ninguém. No limite se não quiser, não quer e acabou a conversa. 

 

O que tem é que chegar e dizer "bom dia " a toda a gente. E diz. E a algumas pessoas de quem gosta muito (como sejam a mim, à mãe, à minha sogra ou à tia-avó, as suas principais figuras de referência)  e com quem sente muito conforto no toque e nos afectos físicos dá automaticamente um beijinho, um abraço, estrafega e o Diabo a quatro. A algumas pessoas dá apenas abraços (e tanto vale para as melhores amigas Leonor, Bia, Laura, Emily, Maria como para a madrinha Rosa) e a outras apertos de mão (vale especialmente para homens e é instintivo, calha também que está numa fase de grande identificação com adultos do mesmo sexo o que explica a maior distância assumida face a adultos do sexo oposto). E quando usa cada uma destas formas de cumprimento, seja o bom dia seja o beijinho com abraço e estrafego incluídos, são todos sinais inequívocos de educação, embora só alguns sejam de afectos. Mas os afectos não podem ser incluídos nas normas sociais de educação e de convivência: os afectos são emoções e a sua expressão deve ser desejavelmente com sentido, conteúdo, direccionada e não uma forma de convenção social. 

 

Os adultos focam tristes, melindrados? Problema dos adultos. Mal estaríamos se estivéssemos dependentes das crianças para resolver os recalcamentos afectivos dos adultos e o ego dos crescidos fosse da responsabilidade dos mais pequenos. Os adultos deverão ter recursos para lidar com a recusa e auto regular essa frustração. "Ah, mas o avô fica triste se a menina não lhe der um beijinho"? A criança não tem que resolver as tristezas do avô nem tem que carregar com essa culpa. O avô deveria era ficar incomodado por ser agradado à força e à custa do desconforto e da falta de vontade do neto.  "Ah, mas é o avô!". Não é não: seja para o avô, a avó, o pai ou a mãe (e já não vamos entrar aqui na discussão que a maioria dos crimes de abuso sexual ocorrem no seio da própria família até porque poderíamos entrar numa histeria colectiva que não faz sentido hoje nesta discussão mas, foquemo-nos que há- sim!- uma relação entre ensinar a não dar beijinhos contra vontade e prevenção do abuso sexual). 

 

"Ah, mas a minha filha gosta muito de dar beijinhos e é muito beijoqueira e sente muito prazer nesse tipo de demonstrações de afecto". Perfeito!  Queremos é crianças confortáveis com este tema. Ninguém aqui é contra beijinhos e abraços: somos contra OBRIGAR as crianças a fazê-lo!

 

Agora, não me digam que a minha filha não é bem educada. É, pois. Porque educar é ensiná-la a dar beijinhos e a beijar de forma consentida, a saber dizer não, a respeitar a sua vontade sobre o próprio corpo e não a subestimar face à necessidade de agradar outros. A pôr-se em primeiro lugar, a gostar muito de si antes de ter necessidade que os outros gostem, a não ser ego-dependente, a não precisar de agradar a toda a hora para se sentir amada. A ser gentil e empática, atenta à realidade e solidária. "Ah mas não custa nada dar um beijinho e fazer os nossos familiares felizes!".

Pois, mas entre fazer um adulto cuja felicidade depende dos beijinhos de crianças feliz ou fazer a minha filha feliz porque respeito a sua vontade sobre o corpo do qual é dona e soberana, escolho fazer a minha filha feliz.  

 

Uma pessoa respeitada e feliz.

 

 

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