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Em nome do Pai

Paternidade na ótica do utilizador.

Em nome do Pai

Paternidade na ótica do utilizador.

Alfabetização precoce? Não, obrigado.

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Ambos cá em casa adoramos ler e temos hábitos de leitura enraizados. Cada um de nós, enquanto filhos, temos as nossas histórias relacionadas com a leitura e a escrita: enquanto eu vivia numa pequena ilha dos Açores, nostálgica e muito chuvosa, onde uma das grandes emoções era quando o carteiro trazia os livros vindos por avião do continente do "Círculo dos Leitores" que me serviam de companhia em dias de grandes intempéries e aguaceiros; a minha mulher, aprendeu a ler aos quatro anos, fruto de uma infância em que tinha internamentos prolongados após intervenções cirúrgicas ortopédicas e tinha que permanecer meses seguidos deitada em macas de barrigas para baixo para ajudar a cicatrizar calcanhares e tendões, pelo que, a leitura tornou-se a única e óbvia actividade possível disponível. 

 

Ambos quando entrámos na escola primária já sabíamos ler ( e embora não conhecesse a minha mulher na infância tenho a certeza que existia ali uma quase sobre-dotação na área verbal) e, por várias vezes, confessámos um ao outro a desmotivação que a primeira classe (sim, somos do tempo da primeira classe!) se afigurou para nós, por não constituir nenhum desafio e quase arriscando que havia muita dispersão comportamental à custa desta frustração de não nos apetecer acompanhar o resto dos colegas numa aprendizagem que já estava adquirida (as avaliações da minha mulher, arquivadas num dossier cá de casa, são de chorar a rir, onde os adjectivos "faladora e irrequieta" aparecem em todos os boletins, de todos os períodos, da primeira à quarta classe, mesmo nos períodos em que ela teve um absentismo de quase 100% devido aos internamentos acima referidos). 

 

A par disto tudo eu sou um apaixonado pelos temas da ludoterapia, do direito das crianças ao brincar, já implementei e coordenei serviços de várias ludoteca, quer comunitárias quer de escola, e acho que as crianças até aos 6 anos deveriam fazer muito pouco para além de... brincar. 

 

Daí que foi uma certeza, desde sempre, que não iríamos apostar numa alfabetização precoce da nossa filha.

 

Assim o fizemos de forma consciente sem que, no entanto, tivéssemos boicotado o contacto da Ana com as letras e os livros: é sócia da biblioteca aqui da terra desde que nasceu, tem uma colecção de livros que ocupa um oitavo da nossa biblioteca pessoal, adora canetas e cadernos e nós correspondemos facilitando-lhe o acesso aos mesmos e, desde sempre, que antes de dormir  lhe é contada uma história. Adora livros, conhece autores, delira com leituras de livros em livrarias públicas e na escola trabalham imenso a compreensão e interpretação de histórias, cruzando-as com outras disciplinas, nomeadamente as artísticas (a escola da Ana tem uma grande componente virada para as Artes). 

 

Desde os três anos que nos pergunta letras, desenha garatujas, investe nos grafismos e nós vamos respondendo às solicitações, sem grande incentivo pela leitura/escrita propriamente dita, mas com a honestidade e justiça de lhe permitir a aquisição de competências de base que lhe alavancarão a aprendizagem- não só mas também da leitura- no seu devido tempo. 

 

Há um grande preconceito com os filhos dos psicólogos (penso que a par de nós, só talvez os educadores de infâmcia sofram da mesma pressão) e é amiúde que vem à baila a questão: "Mas então, não ensinam a Ana a ler?" A resposta é sempre a mesma... não! E as reacções de incompreensão acumulam-se. 

 

Os argumentos de quem defende a alfabetização precoce prendem-se essencialmente com a competitividade que lhes será inerente durante todo o seu percurso académico, a importância de estarem o mais preparados possível desde a mais tenra idade (um pai de uma criança que eu conheço dizia-me, um dia,  que aos quatro anos o filho tinha mesmo que aprender a ler porque o mundo real lá fora é um "Mundo de competicão" e só sobrevivem os melhores e mais bem preparados), uns pais nossos conhecidos disseram-nos, taxativamente, que defendem a alfabetização precoce porque esperam que o seu filho seja o melhor e assim já leva o devido avanço, havendo mais possibilidades de se destacar com este conhecimento antecipado. E muitos dos nossos amigos perguntam-nos, com boas intenções, se nesta fase- em que a capacidade de aprender está exponenciada ao máximo, o cérebro com uma capacidade de aquisição de conhecimentos vertiginosa, a curiosidade a níveis máximos e em que os miúdos são uma autêntica "esponja"- não faria sentido aproveitar todo este potencial para a ensinar a ler, a aprender uma segunda língua, um instrumento musical, etc.  

 

Muitos dos nossoa amigos cujos filhos foram precocemente alfabetizados têm um orgulho imenso nessa conquista dos pequenos e sentem-se altamente valorizados com o feito. Todos- sem qualquer ironia. todos são argumentos válidos.  Mas que, na nossa dinâmica familiar, não fazem sentido.

 

Então mas, depois de tudo isto, não alfabetizam, de todo, a miúda? Nim. 

 

 

Aos 5 anos a Ana sabe todas as letras (até o "k" porque a sua pensonagem principal de desenhos animados se chama "K.C."),  lê, de forma natural, pequenas palavras (cada dia mais e nós, não pressionando nem incentivando, vamos respondendo ao ritmo do que são as suas solicitações). Não porque as tivéssemos ensinado uma a uma, sentados à secretária. Aconteceu, naturalmente (mas estávamos preparados para poder não acontecer, e tudo bem na mesma).

Primeiro porque aprendeu a escrever o nome (tem sorte que é um nome minúsculo e apenas com duas letras diferentes) e, de repente, tínhamos "ANA"s assinadas em tudo mais um par de botas. o "A" passou a ser a letra prefrida dela, de tal forma que desde essa altura usa sempre um fio ao pescoço com uma medalha com o seu "A", oferecido pela homónima avó. Depois porque a sua curiosidade natural a levou a perguntar-nos qual a sonoridade daquele desenho de uma ferradura (o "u) ou porque é que havia um zero no meio das letras todas (o "o") nos ímans de letras que lhe ofereceram num aniversário e que ali estiverem, meses a fio, na porta do frigorífico. E depois apetecia-lhe aprender a escrever mãe, pai, avó, tia e, numa espécie de simples reconhecimento gráfico, as letras foram entrando, de forma natural na sua vida. 

 

E assim, tudo bem. 

 

Então porque o NIM ali de cima? Na verdade, nós começámos a preparar a Ana para o primeiro ciclo já desde a entrada dela no jardim de infância. E preparar para o primeiro ciclo não é ensinar a ler. Porque escolarização não é apenas alfabetização. Então, quais as estratégias que fomos introduzindo neste percurso?

 

  • Reconhecimento do espaço e das noções corporais. Treino da coordenação motora e da motricidade fina, sempre introduzidas através de atividades lúdicas, são essenciais para a Ana se integrar no primeiro ciclo, ter noção do seu corpo, dançar, aprender a pegar devidamente numa caneta, a ter noção do espaço de uma folha, a desenhar letras e números, etc. 

 

  • Trabalhar primeiro a expressão oral antes da expressão escrita: cantar, trautear lengalengas, brincar às rimas, às famílias de palavras, ensinar ladaínhas e mnemónicas, tudo isto, todo este treino do ouvido, da compreensão auditiva, é essencial para a Ana estar melhor preparada para a entrada no primeiro ciclo. Fazemo-lo, geralmente, no carro em viagens de longa distância para passar o tempo. 

 

  • Leitura em voz alta de livros todos os dias antes de dormir, o exemplo de ver os pais no tempo de ócio a folhear livros e a ler, visitas constantes a bibliotecas (a pequenina do Parque Marechal Carmona, em Cascais é a sua preferida!) e a livrarias (a preferida dela é a "Dejá Lu", também em Cascais),  ensinar a procurar temas em enciclopédias para crianças (sim, sabemos que há Google mas porque não fazermos à antiga?) e a frequentar ra ede de ludotecas aqui do concelho são uma constante na vida da Ana desde sempre. 

 

  • Nunca, mas mesmo nunca, introduzirmos letras ou palavras sem ser por resposta às suas solicitações, ou seja, aqui não somos nada proactivos e só reactivos. Vamos respondendo conforme a Ana vai desenvolvendo curiosidade ou interesse pela leitura ou escrita e se sentimos que há uma fase em que ela está mais virada é para a pintura e a modelagem, não a obrigamos a treinar o que já adquiriu. Agora há tempo para ter contacto com tudo, as obrigações e as metas curriculares não nos cabem a nós e só chegarão a partir do próximo ano lectivo, portanto, neste momento a palavra de ordem é liberdade para experimentar todas as técnicas e temas que lhe apetecer. E brincar. Brincar até à exaustão. 

 

  • Treinamos a atenção e a concentração, com jogos giros (somos fãs dos "dobble kids"), durante as refeições  reforçamos a necessidade de o conseguir estar sentada à mesa sem bichos carpinteiros e esperando que todos acabem de comer /eu acho que este é o maior desafio das crianças do primeiro ciclo: ter que estar tantas horas sentadas nas carteiras, e por aí fora.

 

  • Todos os dias lhe aguçamos a curiosidade, falamos dos temas que aprendeu na escola, comentamos o nosso dia e introduzimos temas para que ela tenha contacto com eles (levamos a Ana regularmente ao museu Paula Rego e deixamo-la esparramar-se no chão a "copiar " as telas, que depois leva para a escola para partilhar com a educadora e com os colegas), neste momento em que a fase das experiÊncias científicas acalmou, andamos a construir um herbário e acreditamos que a curiosidade é a chave da aprendizagem. Não da alfabetização, mas da aprendizagem como um todo.

 

  • Falamos da entrada no primeiro ciclo com entusiasmo. Que aí é que vai ser a bestial, a professora dela vai ensiná-la a ler todas as palavras, vai descobrir este prazer da leitura junto com os colegas e nós estaremos aqui para percorrer esse caminho com ela. Sem pressas e no tempo em que tem que acontecer.

 

E é por tudo isto, porque acreditamos que se a entrada no primeiro ciclo foi estabelecida aos seis anos por alguma razão (é a altura em que a cognição e a maturidade emocional, finalmente, se encontram em equilíbrio e com capacidade para darem as mãos), por não querermos que ela comece à frente dos colegas numa corrida de competição que nós não acreditamos que se deva imprimir a miúdos de seis anos, por não querermos que desmotive porque já adquiriu conhecimentos e a escola, de repente, não lhe ofereça nenhuma novidade ou estímulo e não seja o espaço maravilhoso de descoberta e resposta à sua curiosidade natural que queremos que constitua que a Ana, aos 5 anos, junta apenas algumas palavras, escreve outras tantas, lê umas poucas mais ainda não é um prémio Nobel da Literatura em potência. 

 

Que aproveite estes últimos meses até Setembro para brincar. Com letras, números, pincéis,cores, plasticinas, esponjas e colas com purpurinas. Com tudo, menos com pressão.