Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Em nome do Pai

Paternidade na ótica do utilizador.

Em nome do Pai

Paternidade na ótica do utilizador.

Alienação parental como amputação emocional de um filho

Fonte da imagem: www.timetoputkidsfirst.org

 

 

Trabalho com crianças há quinze anos. De todas as formas de violência contra crianças a que já assisti (e, infelizmente, já assisti a muitas e tive que mediar, ajudar a gerir e mesmo denunciar mesmo muitas) a alienação parental continua a ser uma das que mais impacto tem em mim.

 

Sabemos que em Portugal, em média, por cada 100 casamentos, 69 resultam em divórcio. Não temos dados disponíveis que confirmem a existência de filhos como variável concomitante nesta estatística. No entanto, as pesquisas apontam uma forte correlação entre o divórcio após a experiência de parentalidade,verificando-se que cerca de dois terços dos casais acusam o decréscimo da qualidade da conjugalidade durante os primeiros três anos de parentalidade primogénita. A chegada de um segundo filho e todo o stress que implica a gestão de mais um elemento na família pode sero ponto de ruptura de muitos casais. 

 

Podemos, então, afirmar que a parentalidade pode acabar com a conjugalidade?

 

Podemos afirmar que pode contribuir com elevados níveis de stress e ansiedade que contribuam para o fim de uma relação.

 

Numa fase de vivência exclusiva de papéis de conjugalidade os elementos do casal têm que gerir os seus papéis individuais e enquanto casal, sendo que apesar desse ajustamento de amplificação do "eu" para o "Nós" ser desafiante, o tempo, energia e investimento disponíveis para ambos os elementos do casal permitem que essa transição seja feita com maior serenidade. 

 

Isto não quer dizer que os filhos sejam a causa do divórcio. Nunca são os filhos mas o impacto da sua existência na dinâmica do casal e todas as brutais alterações às rotinas, às expectativas, à projecção do outro enquanto pai, à gestão do dia-a-dia, ao carácter definitivo da parentalidade e à complexidade de gestão emocional que a parentalidade acarreta, 

 

O primeiro filho apresenta-nos as privações do sono, a quebra dos níveis de energia, a dificuldade na gestão de tempo e no equilíbrio entre vida pessoal e profissional, o cansaço físico, o decréscimo da sexualidade e da intimidade, a acréscimo de despesas e a pressão na gestão financeira, a necessidade de abdicar de outras fontes de prazer (viajar, sair à noite, ir beber um copo com os amigos a seguir ao trabalho), pelo menos, numa primeira fase em que é o bebé que imprimee estabelece horários e rotinas. O primeiro filho apresenta-nos uma mãe/pai para além de um cônjuge e o confronto com tudo o que idealizámos relativos à parentalidade do outro e a realidade.  Obriga o casal a uma comunicação mais ágil, a trabalho em equipa, a negociação, a resistência à frustração, a melhor gestão de tempo e a uma brutal gestão de emoções. 

 

Um segundo filho obriga a isto elevado ao quadrado e ainda à gestão da relação entre ambas as crianças. Muitas vezes os casais têm uma parca rede de suporte e toda esta experiência é esmagadora e impossível de se manter. 

 

No entanto, eliminando a conjugalidade, os filhos mantêm-se como um projecto a dois, dos dois e para os dois para sempre. Mesmo que os dois já não sejam "um" casal e que passe a haver uma tríade nesta relação (um pai + um pai + filho) em vez de uma díade ("os pais"+ "o filho"). Quando escrevo filho no singular é propositado, pois, num divórcio cada filho tem que ser gerido de forma singular, tendo em conta a sua idade, maturidade, personalidade e reacção particular ao divórcio. 

 

Não é fácil. Nunca é fácil. 

 

A alienação parental é um fenómeno que tem vindo a ser estudado e enquadrado no âmbito das relações hostis entre progenitores, na gestão da sua parentalidade para além da conjugalidade e com repercussões emocionais graves para os filhos. Traduz-se num processo consciente de deterioração da imagem do outro progenitor aos olhos da criança, obrigando a uma tomada de posição por parte do filho e a um sentimento de traição e culpa caso não apoie o progenitor sujeito da alienação parental contra o progenitor objecto da mesma. 

 

"Lamentavelmente, nos contextos descritos, são reconhecidos casos de pais que manipulam os filhos no âmbito desse conflito, influenciando-os a tomar posição nele, como “soldados” da sua “guerra”, e, escudando-se na sua fragilidade, utilizando-os como instrumento de agressividade no processo de destruição, vingança, desmoralização e descrédito do ex-cônjuge, educando-os no ódio por este progenitor e, alcançando, a final, o seu afastamento da criança, ou até a total destruição das suas relações: esta campanha de difamação ou descrédito de um progenitor pelo outro pode ser identificada como alienação parental. " . como referem Marta Costa e Catarina Saraiva Lima, advogadas e autoras de um articulo fantástico e muito completo sobre este tema cuja leitura recomendo aqui.

 

Apesar de ser mais comum que um dos progenitores desencadeie a alienação parental face a outra, não é incomum que ambos o façam numa estratégia de massacre emocional altamente violenta para a criança. Não é, de todo, incomum que outros agentes desencadeiem ou participem neste processo: avós e elementos da família alargada, novos companheiros dos progenitores, amigos da família, entre outros.

 

A criança tem que sobreviver, incólume, ao divórcio para poder crescer com referenciais de relação estável, com linhas orientadoras de negociação maduras e racionais e para construir uma gestão emocional consistente e contentora, preditora de todas as suas relações futuras.

 

À criança NUNCA pode ser dada a escolha entre o pai e a mãe, da mesma forma que (mal comparando) aquando da participação num trabalho de grupo na escola, liderada por outros colegas, e perante o fracasso do mesmo, não se lhe pode ser dito "agora que isto correu mal, amputamos-te a mão direita ou a esquerda?"

 

Os progenitores nascem connosco, o seu amor deve ser inquestionável e a segurança na relação tão estável com cada um deles deve ser um dado adquirido, até porque é com os pais que aprendemos os referenciais do amor e é a relação com eles que nos ensina a relacionar com qualquer outra pessoa no futuro. Os pais são os nossos professores do amor, é (ou deveria ser) com eles que aprendemos a amar. 

 

Ainda que o nosso ex-parceiro falhe, não cumpra, seja negligente ou displicente na sua parentalidade com o filho comum, toda a gestão dessa situação deve ser feita nos bastidores. Cabe a cada um dos pais, como forma maior e mais altruísta de amor pelo filho, zelar pela imagem do outro progenitor enquanto progenitor insubstituível e vitalício. Cabe a cada pai certificar-se que o filho se sente amado pelos dois mesmo depois do fim da conjugalidade, apoiando sempre a gestão da relação e servindo como conciliador e mediador e nunca como elemento causador de tensão ou de conflito.

 

"Não estarei a ser hipócrita e falsa mostrando ao meu filho um pai que não é real, porque é efectivamente negligente, ausente e indiferente ao filho de forma explícita e que o próprio miúdo percebe?"- perguntou-me há uns meses uma mãe. Respondi-lhe que não, que cabe a ela arranjar uma explicação positiva para a ausência do ex-companheiro e, mais ainda, reforçar ao filho que embora o pai possa não estar com tempo para o visitar porque está cheio de trabalho, isso nunca quer dizer que o pai não goste dele,antes pelo contrário, isso nem sequer tem qualquer sentido. "Ah, mas é mesmo verdade que ele se está a borrifar para o filho"- continuava a mãe zangada. Mas o filho não precisa de ser confrontado com essa interpretação da mãe. Cabe à mãe trabalhar todas estas questões no back-office com o ex companheiro e nunca no palco das relações com o filho. 

 

A alienação parental é uma forma de amputação emocional. Fazer sentir um filho que não é amado por um pai é destruir-lhe todos os pilares de segurança emocional, de confiança de que é merecedor de ser amado, com graves danos colaterais ao nível da auto-estima,do amor próprio, da auto-confiança e do bem estar emocional. É uma das formas mais graves de violência contra as crianças e adolescentes!

 

 

Para todos os que quiserem aprofundar mais este tema recomendo a visita ao site "Igualdade Parental" e,em particular, ao download do "Guia de Separação do Casal" e do fantástico "Guia de Coparentalidade Positiva", um documento muito bem estruturado,com ferramentas e estratégias para os pais,inclusive com estratégias adaptadas às diferentes faixas etárias dos filhos. O site "Time do Put Kids First" é outra fonte fantástica e que recomendo vivamente. 

 

 

Comentar:

CorretorEmoji

Comentar via SAPO Blogs

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.