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Em nome do Pai

Paternidade na ótica do utilizador.

Em nome do Pai

Paternidade na ótica do utilizador.

Gonçalo Carter

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Como pai indigna-me, antes de tudo o resto, as manifestações de ódio para com o miúdo. Sim, é de um miúdo que se trata. 

Todos fomos adolescentes e todos fizemos porcaria, dissemos impropérios, agimos de forma tonta, procurámos aprovação externa, lutámos pela nossa individualidade e pelo direito à nossa unicidade, agimos irreflectidamente. Todos, de uma forma ou outra, fizemos asneiras. 

No caso do Gonçalo há três prismas que devemos analisar:

 

 

1. A agressividade

A agressividade encontra-se presente em todos os seres humanos e desenvolve-se de acordo com a relação que cada criança tem com o ambiente que a rodeia. A agressividade é um instinto próprio e revela-se como resposta a sentimentos de angústia ou frustração do ser humanos e sua impossibilidade de controlar o meio ou de serem bem sucedidos na obtenção do que querem/desejam ou precisam. As crianças manifestam comportamentos agressivos desde sempre, como choro ininterrupto ou birras feias, sendo que, à medida que vão crescendo deverão ser ensinadas a controlar este instinto e a gerir eficazmente as suas emoções de forma mais organizada, em especial  a partir do momento em que adquirem uma linguagem verbal fluida que lhes permita comunicar e expressar as suas emoções de forma mais estruturada. 

Estas manifestações de agressividade que podem evoluir para comportamentos de violência como aquele que o Gonçalo demonstrou necessitam, quase sempre de "plateia", isto é, procuram insistentemente a atenção de alguém e repetir-se-ão, tanto ou até que o objecto de atenção perceba que aquela criança/adolescente implora que reparem nele e lhe dê atenção (e, muitas vezes, de forma implícita que o balize, o regre e o ajude a reestruturar-se). 

 As causas para a agressividade podem ser inúmeras desde a falta de atenção parental, comportamentos disruptivos do meio e sua reprodução, necessidade de aceitação por parte do grupo de pares, psicopatologias ou comportamentos desviantes, etc. No caso do Gonçalo pouco sabemos acerca dele e do seu contexto familiar ou das suas características biopsicossociais, no entanto, tendo em consideração que este tipo de padrão de comportamentos agressivos nas redes sociais não é inédito, estamos na presença de um indicador de que sugere que existem razões veladas e que devem ser analisadas, compreendidas e ajudadas do ponto de vista técnico, clínico, até. 

 

2- Necessidade de validação externa

Estamos na geração "palco". Com o crescimento do fenómeno das redes sociais as pessoas procuram ser gostadas/apreciadas/admiradas através dessa relação virtual e as suas medidas de amor/apreciação/popularidade deixaram de se medir através da análise de comportamentos no outro que denunciam apreço (tal como a quantidade de tempo que um amigo despende comigo ou os convites que uma amiga faz para partilhar comigo experiências de interacção social)  e passaram a ter uma métrica de likes/partilhas/nº de visualizações. 

Na adolescência a necessidade de aceitação, pertença a grupos e validação externa é fulcral para a construção da própria identidade do adolescente e o grupo de pares tem um poder de influência superior a todos os outros grupos que até então eram objectos de influência, como a família. 

Gonçalo precisa de likes, partilhas, nº de visualizações para se sentir importante/admirado/gostado e para satisfazer a sua necessidade de afecto. Gonçalo, como tantos outros adolescentes, precisa de atenção, que legitimem o seu comportamento, que olhem para ele. E como faz para o conseguir? Canalizando a sua energia para comportamentos que pretendem causar choque, polémica, horror numa espécie de "dar canal" à moda dos reality shows da TVI ou gerar controversa como alguns pseudo-humoristas do "dark side".

"Pobre" Gonçalo, balizado incorrectamente, com valores baralhados, com necessidades de afecto a piscarem como se fossem placards de néon. 

 

3-  Ajuda

O Gonçalo é um miúdo que precisa de ajuda. Os pais do Gonçalo, com toda a certeza, precisarão da nossa capacidade de empatia. E de ajuda. 

Urge que técnicos especialistas sinalizem esta família e a ajudem a encontrar as estratégias mais adequadas para gerir os comportamentos deste rapaz, urge que se encontrem os mecanismos correctos para recuperar questões valorativas e de adequar comportamentos à vida na sociedade. E, mais que tudo, urge que a mesma sociedade que valida reality shows que promovem modelos de referência para estes adolescentes com comportamentos disruptivos através de métricas como prime sharing, percentagem de audiência  deixe de ser hipócrita e responda a um adolescente perturbado e com distúrbios emocionais com comentários de ódio e violência nas mesmas redes sociais. 

 

Precisamos-todos- de mais amor. 

 

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