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Em nome do Pai

Paternidade na ótica do utilizador.

Em nome do Pai

Paternidade na ótica do utilizador.

I ♥ Electra

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 Ela chama-me Bismim quando quer alguma coisa. Bismim, assim: "Ohhhh Bisssssmiiiiiiim"com voz dengosa e aflautada. De manhã vem ter à nossa cama e enfia-se no meio de nós, agarra a minha cara com as duas mãos, olha-me nos olhos e diz "posso acabar de dormir aqui contigo?". Quando eu beijo a mãe, arranja forma de se enfiar no meio de nós e dos nos apartar com a desculpa do "abraço de família".  No outro dia, ao visionar pela trigésima nona vez o DVD do nosso casamento, suspirou "Se eu fosse uma pessoa neste filme queria ser a mãe". "Para teres um vestido bonito?"- perguntei-lhe eu, sinceramente convicto. "Não, para casar contigo!".

 

Ela trepa-me pelo colo, como um animal a trepar um tronco, dá-me um beijinho sonoro no ouvido para me fazer resmungar e depois abraça-me com o corpo todo. Ela pede-me cavalitas e faz de de mim farol do seu caminho, mãozinhas pequeninas agarradas às minhas e eu esqueço-me que ela já está pesada e me doem as costas. Ela fica eufórica quando sou eu, inesperadamente, a apanhá-la na escola. Pisca-me o olho quando acorda e diz alto "hoje estou com paizite", o que significa que está mais virada para o meu lado que para o da mãe naquele dia. Faz olhos de gato das botas, no código tão nosso, olhos com nome do nosso sobrenome, o mesmo azul. Dá-me beijinhos grandes, pequenos, rechonchudos e repenicados, reclama com a minha barba e beija-me a testa, o nariz, o pescoço numa luta de beijos sem fim.

 

Ela diz que eu não tenho jeito para lhe escolher a roupa mas que eu sou o melhor do Mundo a fazer panquecas. Ela sente orgulho por ser minha filha quando eu vou fazer atividades na escola dela, tem ciumes quando os outros meninos metem conversa comigo e acha que eu sei muitas coisas, mais do que as que eu realmente sei. Pede-me que lhe faça vozes quando lhe conto histórias e que lhe ensine canções disparatadas. Chama-me "paizinho, papi, papá, papázinho e Bisssssmmmmiiiiiiiiiimmmmm". Diz que me ama com a mesma naturalidade com que me despenteia, me faz cócegas ou luta comigo lutas de almofadas. Quando a mãe viaja em trabalho dormimos juntos no sofá da sala, encomendamos pizza e vemos filmes até adormecer. Sempre com pipocas. 

 

Quando fazemos um bloco anti-mãe, turma dos olhos azuis, clube dos loiros, a mãe provoca-a: "Ah, sabes que o teu pai queria ter um filho rapaz quando a mãe engravidou? Sabes? Sabes?" Ela desculpa-me sempre: "Isso era porque ele não sabia que a rapariga que aí vinha era eu".

 

No dia do pai fez o desenho mais bonito de todos, o pequeno almoço só para mim, na escola fez-me um presente e com a mãe escolheu um microscópio que se encaixa no meu telemóvel para podermos observar folhas, ramos e insetos quando vamos juntos fazer aventuras. 

 

Mas o que eu (que sou orgulhosamente o seu Bismim sem fazer ideia do que significa a palavra) queria mesmo ter recebido era uma t-shirt com a minha frase preferida impressa:

 

"I ♥ Electra".