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Em nome do Pai

Paternidade na ótica do utilizador.

Em nome do Pai

Paternidade na ótica do utilizador.

Mãe da filha# 8

 

 

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"De repente ali estava eu: trancada dentro do carro, no estacionamento do supermercado. Janelas como os olhos: ambos fechados. O mais profundo e apreciado silêncio.

 

Há sempre uma certa culpa em nos queixarmos dos filhos. Ou, então, sou eu que não sei lidar com a culpa materno-judaico-cristã que me persegue. Custa-me queixar-me dela, custa-me admitir que às vezes fico tão cansada, e não é do trabalho, de casa, é mesmo dela, sinto desconforto em reclamar em voz alta como se não tivesse o direito de acusar este cansaço eu, com um casamento porreiro, com um marido que é pai na mesma proporção que eu sou mãe, com uma rede de apoio familiar fabulosa, mãe de filha única, no fundo, uma privilegiada. Só que fico.

 

Depois penso nas mães solteiras, nas mães com um rancho de filhos todos seguidinhos, nas mães cujos marido não participam equitativamente nas tarefas do dia-a-dia das crianças, nas mães emigradas e sem rede de apoio familiar ou social, nas mães com filhos não saudáveis e dependentes, nas mães com filhos com doenças terminais à cabeceira das suas camas, mães sem terem nada para dar de comer aos filhos, mães refugiadas a transportar filhos bebés em botes e sinto aquele bichinho da culpa. Se há "white people's problems" eu acredito que também existem "white mum's problems".

 

Às vezes -muitas vezes, tantas que não digo a ninguém- fico ali a moer a culpa deste cansaço e depois lembro-me dela não querer levantar-se, da otite, de não querer aquelas calças, da gastroenterite viral, de reclamar que saias castanhas são para rapazes (reviro os olhos!), de não querer lavar os dentes, de não querer parar de comer pasta de dentes, de querer torradas com pão aparado, mas agora já não quer torradas, quer cereais com leite, ah, afinal sem leite, não quer o cinto da cadeirinha do carro,não quer sair da cadeirinha do carro, não quer dormir a sesta, reclama por mais um episódio do Jake e os Piratas, não tem sono, adormece, a sesta passa num esfregar de olhos, depois não quer acordar da sesta, não quer sair de casa e ir visitar a avó, quando a vou buscar não quer sair da casa da avó, não quer ir para o banho, não quer shampoo no cabelo, não quer sair do banho, não quer vestir o pijama da Dra. Brinquedos, o da Frozen está para lavar, mais choro, mais reclamações, mais birras, não quer o jantar no prato cor de laranja, só bebe a água no copo cor-de-rosa, tens que comer proteínas e vegetais e fruta e tudo, mais estratégias para lhe dar a volta, não quer ir para a cama, quer só uma história, só mais uma, mais nove, adormece e é fim-do-dia, sábado e eu só me apetece deitar-me no sofá com tudo às escuras em silêncio- porque é sábado, é um privilégio. 

 

E depois quando é dia de semana, como hoje, deixo-a um bocadinho na minha mãe e venho ao supermercado e revejo tudo isto na minha cabeça e os dias são assim, a correr e cansados, com birras e lágrimas de crocodilo, com negociações constantes e "não queros" mais a culpa judaico-cristã e a psicologia positiva e as mindfulness things do não se berra e não se bate e sou uma mãe racional mas...

 

... é segunda-feira e estou exausta, de olhos fechados no estacionamento do supermercado, trancada no carro, numa espécie de sessão de mummy meditação mas sem cânticos mantras de "oooooommm" e com um ar alucinado e vontade de enfiar uma pastilha no bucho e dormir até ela atingir a maioridade, numa espécie de "mãe adormecida".

 

Só por causa das tosses hoje levo lasanha congelada para o jantar.

 

Que se foda!"

 

Liliana (minha mulher e mãe da minha filha)