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Em nome do Pai

Paternidade na ótica do utilizador.

Em nome do Pai

Paternidade na ótica do utilizador.

Pelo fim dos "mini-mes"!

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"Eu não sou a minha mãe!"- foi a resposta, irada, da minha filha a um comentário da avó depois da enésima comparação com a mãe.

 

A nossa filha é muito diferente de mim e da mãe e... ainda bem. 

 

Não estou a falar no sentido biológico (e mesmo até aí há discordâncias, com cada lado da família a reclamar semelhanças: a minha mãe a dizer que ela é igualzinha a mim na idade dela e a família da minha mulher a dizer que ela é igual à mãe com excepção dos olhos que aí- sem discussão- são inequivocamente iguais aos meus!). O DNA foi simpático com a Ana oferecendo-lhe de bandeja o melhor de cada genotipo do pai e da mãe: os olhos enormes e azuis herdados do meu trisavô nórdico, os lábios mais carnudos e as sobrancelhas compridas e finas da mãe e o cabelo loiro de ambos. 

 

Se para a Ana a coisa resolveu-se ali por volta dos seis meses, altura em que os bebés se apercebem que eles e mãe não são seres únicos e indissociáveis, que não controlam a presença e a ausência da mãe e que dependem não só dela mas de outros cuidadores (é nesta altura que o pai começa a ganhar alguma importância!), para nós a aprendizagem tem sido contínua. 

 

Dizia eu que a nossa filha é muito diferente de cada um de nós. Ao princípio foi difícil e confuso. Éramos pais de primeira viagem e não estávamos a pisar terreno seguro. Ter uma filha com características de personalidade semelhantes a algum de nós, qualquer um que fosse, ter-nos-ia dado linhas de orientação, pistas, possibilidade de empatizarmos e, sobretudo, ideias de como reagir a cada ação, reação, comportamento. Não aconteceu. A Ana tem uma personalidade muito própria e muitas vezes estamos a pisar terreno absolutamente desconhecido e... minado. É, no mínimo, desafiante. 

 

Talvez por isso, ou talvez pela nossa formação académica. nunca, nem mesmo nos primeiros meses de vida, cedemos à tentação de olharmos para a Ana como extensões de nós. A nossa filha existe como ser único e diferenciado, indivídua com personalidade e existência própria, independente dos progenitores. 

 

Obviamente que a família passa a vida a tentar encontrar semelhanças com o respetivo progenitor de quem são parentes e, inevitavelmente, face à frustração de também pisarem o mesmo terreno desconhecido, lá vêm as comparações. "Ah, a tua mãe era muito mais simpática!" ou "Pois, o teu pai era muito mais obediente!".

 

Nessa altura, sempre desde que ela era bebé, desde o dia em que tive que explicar à minha mãe que ela não usaria o meu fio de ouro de bebé a partir do dia em que nasceu e a minha mulher teve que declinar a ideia da minha sogra em adaptarem o vestido de batismo dela para que a Ana o pudesse usar, foi para nós importante demarcarmos que a Ana não é uma extensão de nós, nem de um nem de outro, e que merece viver sem ser à sombra de nós, sem ter que corresponder às expectativas que os pais não corresponderam, sem ter que reproduzir bons comportamentos ou evitar cometer os mesmos erros. Que a Ana tem o direito máximo à sua própria individualidade.

 

A Ana existe enquanto ser individual, com identidade própria, digna de ser aceite e amada exactamente tal como é e o Mundo é novo e a estrear para ela, portanto, tudo é possível e... ainda bem. 

 

No entanto, nem sempre há clareza face a este assunto e alguns progenitores acabam por encarar os filhos como uma extensão deles mesmos, um reflexo da sua infância, uma segunda oportunidade de resolverem issues e frustrações e recalcamentos, de se poderem projectar. E, muitas vezes, os filhos vivem esta pressão de terem que corresponder a estas expectativas dos pais, gastando energias tentando competir com o passado dos progenitores ao invés de trilharem os seus proprios caminhos, as suas próprias escolhas, de serem apenas eles mesmos. 

 

Há tempos aderi ao instagram. Qual foi o meu espanto quando percebi que o hashtag #minime somava o fantástico número de 5.892.736 publicações, 99% referindo-se a fotografias de progenitores com os respetivos filhos. 

Ali há de tudo: mães com filhas vestidas de igual, pais nas mesmas posições e caretas dos filhos e toda uma panóplia de variações deste mesmo tema. 

 

 Claro que depois quando chega a adolescência e dezenas de pais nos perguntam porque é que os miúdos os "odeiam" tanto e rejeitam tudo o que eles lhes sugerem temos que fazer uma espécie de "regresso ao passado". Os adolescentes não gostam de ser "do contra" e "irritantes" só porque sim. Crescer implica começar a definir a sua própria individualidade. E, especialmente, uma individualidade distinta dos pais.

 

É por isso que, de repente,os pais se vêm com filhos que querem ser vegetarianos, ativistas ambientais ou resgatadores de animais selvagens. Os adolescentes querem ter as suas próprias causas, diferenciadas e autónomas dos pais, de preferência em áreas em que estes sejam absolutamente leigos, para não terem que levar com palpites, opiniões, sugestões e... comparações.Querem ser diferentes (o mais possível) pintando cabelos, fazendo piercings, abandonando o ballet que era o recalcamento da mãe ou o futebol que era o recalcamento do pai e investindo no yoga e nas artes marciais. Querem distanciar-se o mais possível como prova da sua capacidade em serem pessoas individuais e autónomas, e, especialmente, únicas e não extensões dos pais. 

 

Os adolescentes não estão só a provocar os pais (ok, também podem estar um bocadinho!). Estão a tentar mostrar que são capazes de se safarem sozinhos, definindo-se como únicos e distintos e, fundamentalmente, marcando com uma linha grossa e escura a fronteira entre a individualidade deles e a dos pais, onde começa a sua e acaba a dos progenitores. E (reconheçamos) com todo o direito. 

 

Por isso aqui vai o meu manifesto contra os "mini-mes" deste Mundo. E a favor dos "super-she" ou dos "super-he". Porque defendo, acima de tudo, o direito inquestionável a ser-se quem se é.

 

"Eu não sou a minha mãe!"- dizia a Ana. E embora ame a mãe dela com todas as minhas forças "just the way she is", respiro fundo e digo: "Ainda bem, filha! Tu és tu e não te trocávamos por mais ninguém!"

 

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