Quando ela me espera eu vou e tudo o resto pode esperar
Ela sobe para a arca de verga cor-de-rosa- minha pequena Jane- nota-se que já gosta de padrões folclóricos- estou feito ao bife- e olha pela janela.
Tenta equilibrar-se naqueles centímetros pequeninos, estica o pescoço e tenta alcançar a vista da janela. A cada carro preto que passa grita "Paaaaiiii!"- conta-me a mãe. Ela espera-me, assim, aos finais das tardes que teimam em esticar-se, entre reuniões, conselhos de docentes, atendimentos pós-laborais e afazeres vários, nenhuns tão importantes como ser o motorista do carro preto que a minha filha espera à janela.
A mãe tenta dissuadi-la, aponta-lhe brincadeiras, jogos, bonecos, tarefas as duas mas os fins de tarde mais compridos têm a forma do pai, que se atrasa, que teima em chegar, que o relógio faz rasteiras e ela não arreda pé do alto da arca de verga cor-de-rosa, esperando-me a mim- meu amor pequenino- como que a retribuir eu ter esperado por um amor assim a vida inteira.
A mãe manda-me esta fotografia e eu peço licença, apresso o final da reunião, fecho a agenda, o caderno, pouso a caneta e corro para o carro preto que ela espera, e que só espera porque sou eu que venho cá dentro.
E quando ela me espera assim, eu vou, e tudo o resto pode esperar.
Cheguei a casa.
