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Em nome do Pai

Paternidade na ótica do utilizador.

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Uma metáfora com piolhos e a dica final para os eliminar

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Quer queiramos dizê-lo em voz alta ou não (neste caso escrevê-lo), a determinada altura da nossa infância todos (ou a maioria de nós) teve piolhos. 

Hoje em dia, nas escolas, damos imensas metáforas (a minha mulher escreveu um texto hilariante sobre isso em http://quadripolaridades.com/amigos-indesejados-o-caracinhas-1881406) mas a verdade é que estes pequenos monstros assistirão à extinção de animais ferozes e robustos africanos e mesmo assim resistirão. 

Dei comigo a pensar em como lidar com piolhos reflete as mudanças nas vivências da parentalidade.

No tempo da minha avó ser mãe, sempre que havia piolhos havia duas soluções: catava-se os bichos à mão com uma paciência de chinês ou optava-se pela solução drástica e radical de cortar o cabelo bem curtinho. Fosse rapaz ou rapariga. E assunto resolvido sem grandes intelectualizações. Até porque o cabelo tem aquela característica espectacular: cresce! 

Já no tempo da minha mãe ser mãe havia a tendência de se evitar optar pela solução fácil de cortar o cabelo e, com algum custo financeiro (que o shampoo não era propriamente barato) lá se comprava o quitoso e um pente fininho. Sentávamo-nos e começava a tortura e nada de reclamar senão lá vinha a ameaça da máquina zero e nem toda a gente gostava do look militar. Especialmente as raparigas.

Hoje em dia tivemos quase um concelho de família quando recebemos um mail da escola da Ana sobre os “viajantes”. A mãe recusou-se a usar químicos como prevenção e fomos directos à farmácia, onde a farmacêutica nos vendeu uma fita que continha um produto que afastava os bichos. Quinze euros por uma fita de licra pelintrissima a tresandar. Passados dois dias da miúda andar com a fita apanhei-lhe um piolho. Morto. Mas lá estava. E era um piolho. Outra vez uma discussão de reflexão sobre o tema e rumamos ao “Celeiro” para comprar uma solução natural e bio para evitar os bichos que resultou numa essência de alfazema que todos os dias colocavamos atrás das orelhas da miúda e, mesmo sendo apenas uma gota, a tornavam tão cheirosa (demasiado cheirosa) que acreditamos que os piolhos não se atreveriam a chegar perto. Nem os piolhos nem os amigos, que aquilo era insuportável. Mas valia tudo.

Uma semana depois fomos a uma importante apresentação de trabalho e enquanto a mãe fazia a sua apresentação para uma enorme plateia assistia a um frenesim coça-coça da filha também a assistir na audiência. Dito feito- a miúda carregada de piolhos e nós a 200 km de casa. Não acabámos o fim-de-semana de lazer que se seguia à palestra e voamos até casa. “Mas porque não pararam numa farmácia de serviço e não compraram um”stop piolhos”, um “nix” ou um “quitoso”? Porque nenhum de nós queria esfregar químicos no couro de cabeludo loiríssimo da miúda e em casa jazia o milagroso pente electrico oferecido por uma amiga.

E assim foi, depois de todas as fronhas, lençóis,cobertores, edredons, mantas lavadas, depois da minha mulher pesquisar no Google onde se compravam aqueles guardanapos para encostar a cabeça que se veem nos aviões (estava a ponderar ter esses guardanapos descartáveis colados com velcro nos sofás de casa, para que vocês vejam até onde chegou a paranóia), ali estávamos nós a electrocutar piolhos na cabeça da nossa filha, num processo moroso e chato (a miúda é super cabeluda!) para evitar químicos, cortes de cabelo e experiências traumáticas quer para a saúde física quer psicologicamente.

E então pensámos que nunca houve uma geração de pais como a nossa- preparada, informada, consciente, interessada. Que não opta pelas soluções mais fáceis (cortar o cabelo), nem pelas mais rápidas (usar o quitoso) mas que procura as opções mais saudáveis, mais prudentes, que previne efeitos secundários, que quer controlar que não haja falhas e que não se importa de investir tempo, dinheiro e fazer todos os esforços para tomar a decisão mais acertada para a criança. Mesmo que isso implique passar com um pente electrico fio a cabelo a fio a cabelo, electrocutando piolhos pelo caminho.

Resulta, é verdade. Mas ainda assim procurámos no dr. Google se os pequeninos choques electricos aos amigos viajantes não fariam mal algum ao couro cabeludo da miúda. E lá está, a minha avó cortava o cabelo curto aos filhos para acabar com os piolhos e resolvia o problema em dez minutos sem voltar a pensar no assunto até nova epidemia (e novo corte, sem dó nem piedade); a minha mãe esfregava-nos o quitoso sem pensar que podíamos ficar com cancro no couro cabeludo e já achava que estava a ser bem benevolente porque não nos cortava o cabelo; nós passámos umas três horas a electrocutar piolhos do cabelo da miúda, de forma obcessiva-compulsiva, tendo a certeza que não sobrava nem um e que o cabelo se mantinha intacto e o couro cabeludo saudável e, mesmo assim, no final, ainda estávamos cheios de pena da miúda e com medo que aquele tempo todo a ver tablet para a mantermos quieta mandasse às urtigas a educação de todos os cinco anos anteriores de consumo de YouTube em doses homeopáticas e a traumatizasse por tanto tempo a escarafunchar-lhe o cabelo. Inseguros. Isso mesmo que leram: inseguros.

Somos a geração de pais mais preparada e, ainda assim, a mais insegura. A que tem tanta informação e escolha ao dispor que teme tomar qualquer decisão com medo de não ser a melhor. Não nos basta ser uma decisão certa e eficaz. Tem que ser a melhor. Não há margem para erros. Somos exigentes e pouco condescendentes conosco como nenhuma geração anterior de pais o foi.

A nós não nos basta acabar com os piolhos. Isso é o menos. Queremos acabar de forma a que a miúda saia intacta emocionalmente (cortar cabelos à rapaz é traumático!) e fisicamente (abaixo os químicos!). Queremos eliminá-los de forma orgânica, quase dando-lhes uma epidural para uma eutanásia suave, um choque suave e só não os catamos com uma pinça sem os matar porque não saberíamos para onde os enviar...

Somos uns pais espetaculares, essa é que é essa. E completamente inseguros sem razão! Retirei essa lição com os piolhos da minha filha.