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Em nome do Pai

Paternidade na ótica do utilizador.

Em nome do Pai

Paternidade na ótica do utilizador.

Vamos falar de identidade de género com os pais?

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Mesmo que nasçamos de pele clara e nos tornemos morenos com o passar dos anos ou de olhos azuis durante a primeira infância e depois os olhos escureçam e fiquem cinzentos ou azuis mais escuros, mesmo que nasçamos carecas ou loiros de cabelos lisos e as hormonas da adolescência nos encrespem o cabelo, lhes confiram "jeitos" e a idade adulta os escureçam, todas essas mudanças são bem aceites por nós e pela sociedade, como se as nossas características de cor de cabelo, olhos, pele e mesmo as nossas características de personalidade ("era tão tímido e depois tornou-se extrovertido" ou "era uma miúda tão bem disposta e ficou surumbática" ) estejam autorizadas a mudar ao sabor do nosso crescimento.

 

No entanto, falamos de género quase sempre enquanto uma característica estável: nascemos meninos ou meninas, crescemos rapazes e raparigas, tornamo-nos homens e mulheres e assim morremos. Ou pelo menos é isso que a sociedade espera de todos nós. Só que não. 

 

" Mas qual a diferença entre sexo e género? "

Já nos anos 50, Money, Hampson e Hampson esclareciam que o “sexo” se refere às caraterísticas físicas que distinguem os homens das mulheres", por sua vez, “género" diz respeito às caraterísticas psicológicas e comportamentais de cada sexo (Muehlenhard e Peterson, 2011). Posteriormente, e ainda entre os autores que estabelecem a distinção entre os dois termos foi desenvolvida a noção de que o “género” remeteria para as influências culturais e o “sexo” estaria mais ligado ao papel dos fatores biológicos (Muehlenhard e Peterson, 2011). 

 

Embora a utilização das duas terminologias seja, geralmente, indiscriminada, os dois conceitos são diferentes: enquanto o sexo tem uma matriz biológica, anatómica e fisiológica; já o "género" refere-se a um construto social acerca das características socialmente atribuídas a homens e mulheres, tais como normas, papéis e relações entre grupos de homens e mulheres que pode variar de acordo com as diferentes culturas, hábitos e costumes de cada sociedade. 

 

"O que é a identidade de género?"

A identidade de género é construída através da assunção de papéis e normas sociais. Identidade de género é a forma como nós, como indivíduos, compreendemos os nossos corpos, personalidades e predisposições, e se estes se alinham ou não com as normas de género estabelecidas e sobre as quais fomos criados (Killermann, 2013).

 

Regra geral, a maioria das pessoas identificam-se com o sexo que lhes foi atribuído à nascença, no entanto, em alguns casos são notórias incongruências entre o género e o sexo da pessoa (Beek, Cohen-Kettenis & Kreukels, 2016). Uma identidade de género é vista como "não normativa"  quando não encaixa nas normas culturais estereotipadamente atribuídas às pessoas de um determinado sexo, dentro de uma determinada sociedade e contexto histórico (Caenegem, et. al, 2015), independentemente da sua orientação sexual (Ehrensaft, 2011)

  

"O que é a expressão de género?"

A expressão de género comporta toda e qualquer forma de expressão através da qual refletimos a nossa identidade de género. Ou seja, comportamentos de género tais como maneirismos, cortes de cabelo, roupa utilizada (Brill & Pepper, 2008) que são tipicamente atribuídos ou expetáveis de indivíduos de um determinado sexo (Beek, Cohen-Kettenis & Kreukels, 2016).

 

 "Porque é que existem crianças cujo sexo e género não coincidem? "

Tradicionalmente é o sexo biológico que temos ao nascer que determina a nossa identidade de género, embora não exista nada inscrito nos nossos cromossomas que determine a nossa identidade de género. Isto significa que se uma criança é identificada como pertencendo ao sexo masculino vai ser educada como um menino para mais tarde se tornar num homem, e se for identificada como pertencendo ao sexo feminino vai ser criada com uma menina para, no futuro, se tornar numa mulher (Killermann, 2013). 

 

Esta categorização determina a que a criança cresça e se socialize num ambiente binário de homem vs mulher desde sempre. Enquanto a maioria das pessoas nascem homens ou mulheres e se apropriam naturalmente das normas e comportamentos socialmente atribuídos a esses sexos (incluindo a forma como se devem vestir, comunicar, brincar, expressar emoções e inclusive interagir com os outros quer sejam do mesmo sexo ou do sexo oposto); uma minoria não se "encaixa" nas normas de género estabelecidas socialmente para os seus sexos biológicos.

 

Se a criança tem uma identidade de género alinhada com as normas de género com que está a ser educada e que coincide com o seu sexo biológico trata-se de uma criança "cisgénero". Contudo, se a relação entre sexo biológico vs identidade de género não está alinhada e a criança não se identifica, não obstante a criança se encontre a ser socializada num contexto cisgénero, então estamos diante de uma criança "transgénero" ou "não binária".

 

"É importante ser sensível às diferentes identidades que não têm que encaixar necessariamente nas categorias binárias de homem e mulher"- relata a própria Organização Mundial da Saúde.

 

"Explique lá melhor isso do cisgénero e do transgénero!"

Se se nasce com um pénis, se se é educado e socializado normativamente como um menino e se sente um menino é um rapaz cisgénero. Se se nasce com uma vagina, se se é educada e socializada normativamente como uma menina e se se sente uma menina é uma rapariga "cisgénero"

 

Já o termo "transgénero" não é tão taxativo e estanque. Uma criança "transgénero" pode abranger várias identidades de género: crianças cujo género não se identifica com o seu sexo biológico, crianças que não se identificam com nenhum género, crianças que se identificam em partes com um género, crianças que se identificam com mais de um género ou, ainda, crianças que fluem de um género para outro, isto é, importa perceber que existem crianças que não se identificam (completamente ou em partes) com o padrão binário de género homem vs mulher. 

 

Quando nos referimos a "transgénero"  pensamos, de imediato, em pessoas que se identificam com outro sexo que não o sexo que lhes foi atribuído à nascença. No entanto, importa esclarecer que uma pessoa transgénero  pode movimentar-se livremente entre o masculino e o feminino ao mesmo tempo (identificando-se ora com um, ora com outro). Ou, inclusive, rejeitar esse espetro binário, não assumindo qualquer noção de género (Nieder, Elaut, Richards & Dekker, 2016).

 

Em suma, para além do preto ou branco do binómio homem vs mulher que encaixa perfeitamente nas crianças cisgénero, há toda uma palete de pantones de cinzento que podem representar as crianças transgénero. 

 

 "Trata-se de uma questão de escolha?"

Não. Trata-se de uma questão de essência. O género (tal como a sexualidade) não são características que as pessoas escolham (até porque se escolhessem estou certo que a grande maioria optaria pelos opostos "normativos" e socialmente desejáveis", isto é, ser do género que lhes foi designado ao nascerem, que é o que a sociedade espera que elas sejam, sem se questionarem um milésimo de segundo), são características que as pessoas acabam por, mais tarde ou mais cedo, descobrirem em si ou revelarem-se com maior nitidez num processo de crescimento, auto-descoberta e aceitação pessoal. 

 

Não pensem que se trata de um capricho do estilo de "olha a filha da Angelina Jolie e do Brad Pitt a querer ser diferentona desde pequena para chamar a atenção e a mãe a validar isso,pfff!". Género é uma característica fulcral para a existência humana e não é uma escolha. 

 

A vinda à luz da ribalta de casos como Caitlyn Jenner  vieram trazer maior conhecimento sobre esta realidade e desmistificar a ideia preconcebida que são os nossos cromossomos os únicos responsáveis por definir quer o nosso sexo quer o nosso género. Na verdade, existem muitos outros fatores (nomeadamente ambientais) que condicionam a nossa identidade de género.

 

Resumindo, todos nascemos com um sexo definido mas a determinação do género depende do sentir de cada indivíduo, sendo que a identidade de género trata-se de uma questão de direitos básicos de liberdade individual.

  

"A partir de que idade as crianças começam a evidenciar sinais de pertença a  um género não binário ou transgénero?"

Quando nascem as crianças são vistas como pertencendo a um sexo, atribuindo-se características de acordo com esse sexo quer ao nível dos seus cromossomas, anatomia reprodutiva, hormonas, comportamento sexual e são entendidas, tratadas e educadas  segundo traços e características dessa etiologia biológica.

 

Antes dos 5 anos as crianças são muito "assexuadas" nos seus comportamentos, respondendo apenas aos estímulos que o ambiente e os adultos lhes proporcionam (por exemplo, nenhum rapaz com 3 anos rejeita uma boneca ou uma cozinha de brincar que o Pai Natal lhe traga para fazer "Jogo simbólico" nem nenhuma menina da mesma idade se nega a dar pontapés numa bola ou a brincar com carrinhos porque não atribui qualquer significado ou conotação sexual aos brinquedos). Antes desta idade as crianças não questionam as questões de género nem as vêem como algo permanente e imutável (partilhando convosco, acompanhei em tempos um aluno de 3 anos que dizia que quando fosse grande queria ser ... "mãe"!").

 

A verdadeira confusão está na cabeça sexualizada e compartimentada dos adultos que querem, desde cedo, reforçar a concordância entre sexo e género dos filhos de forma a conotarem-nos com uma determinada sexualidade socialmente desejável (recordemo-nos de que todos conhecemos o pai que se recusa a vestir cor-de-rosa ao bebé porque "o meu filho é muito macho" ou a mãe que não oferece o futebol à filha de 4 anos como atividade extracurricular porque isso é "coisa de rapazes").

 

É, geralmente, a partir dos 5 anos que aspetos como a feminilidade e masculinidade; a noção de grupos sociais; a ideia de categorias e traços/ características de origem social; a noção de categorias relacionadas com os traços do que é considerado ser feminino ou masculino e ainda os estereótipos (generalização abusiva atribuída a uma categoria) (Allport, 1979), ou expectativas que a sociedade tem e atribui a homens e mulheres (Muehlenhard e Peterson, 2011) começam a ser incorporadas pelas crianças.

 

É por volta desta idade que as crianças passam a considerar o género enquanto uma característica estável (as meninas sabem, por exemplo, que se cortarem o cabelo curtinho não se tornam meninos ou os meninos têm a certeza de que se usarem um vestido de princesa das irmãs não se transformam em meninas), descoberta esta que as conduz à incorporação do género na sua própria identidade. É também nesta fase que se mostram cada vez mais interessadas em estabelecer relações com pares e procuram no ambiente informações relacionadas com o género, mostrando, inclusive, alguma rigidez na adesão a estereótipos de género (preferindo brincar com pares do seu próprio género ou escolher brinquedos ou brincadeiras estereotipadamente atribuídas ao seu próprio género). Parece que há uma enorme necessidade em afirmarem a sua identidade de género para saberem quem são e se organizarem e situarem no Mundo.

 

Só entre os sete e os dez anos é que baixam a guarda e se mostram mais seguras, tornando-se mais flexíveis face ao tema e deixando de se justificar, sendo que a partir dessa idade, tanto meninos como meninas  assimilam que, para além da estabilidade. o género também goza de uma constância, conseguindo assumir- com tanta naturalidade quanto foram educados para isso- que as brincadeiras não definem a sua identidade de género.

 

Posto isto, é a partir dos 5 anos e até aos 10 que, regra geral, as crianças começam a perceber que não se encaixam nos comportamentos normativos de género que foram definidos para o seu sexo biológico e que se começam a manifestar as primeiras reações de não concordância a este nível. Nesta altura, a criança sente e sabe que não é cisgénero, cabendo aos pais ou cuidadores apoiarem na sua descoberta, sem recriminações nem censuras, apoiando apenas na descoberta de quem ela realmente é no que diz respeito ao seu género. 

 

Portanto, se uma criança de oito anos assume e afirma que é de outro género ela sabe que não é cisgénero e a sua certeza deve ser tão respeitada quanto uma criança cisgénero da mesma idade que não tem qualquer dúvida de que é cisgénero. .

 

"A identidade de género está diretamente relacionada com a sexualidade?"

Não.  Enquanto a orientação sexual diz respeito à atração romântica e sexual que sentimos por outras pessoas, já a identidade de género refere-se à forma como nos encaixamos a nós mesmos dentro do espetro masculino-feminino, pertencendo ao género masculino ou ao feminino, ou a ambos; ou ainda, a nenhum (Brill & Pepper, 2008).

 

A orientação sexual refere-se à heterossexualidade, à homossexualidade e à bissexualidade; enquanto que a identidade de género trata a cisexualidade e a transexualidade. Uma pessoa cisgénero pode ser heterossexual, homossexual ou bissexual . Uma pessoa transgénero pode ser, exatamente o mesmo: heterossexual, homossexual ou bissexual.  

 

Estamos, portanto, a falar de conceitos relacionados entre si, mas independentes, sendo que a identidade de género não dita a orientação sexual (Slesaransky-Poe & García, 2009), coexistindo inúmeras combinações de identidades de género e orientações sexuais. 

 

"Qual o papel dos pais?"

Apoiar. Procurar compreender. Pedir ajuda a profissionais se sentir necessidade. Amar como sempre. E apoiar. 

 

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