We agree to disagree# 3 Furar ou não furar as orelhas?!

Sempre fui manifestamente contra furar as orelhas a bebés recém-nascidos. Para além de achar super piroso, acho que o bebé já sofre tantas agressões necessárias e imprescindíveis (como as picas das vacinas) durante o primeiro ano de vida, que furar as orelhas por motivos meramente estéticos e de manifestação social de feminilidade era um motivo muito pouco válido. Furar as orelhas à miúda, mutilando-lhe o corpo, infligindo-lhe dor (sim, aquilo dói, não me lixem!), obrigando-a a usar um símbolo cultural de feminilidade sem qualquer consciência ou poder de escolha não era para filha minha.
Por outro lado, a minha mãe só me furou as orelhas aos 5 anos, depois de muita insistência minha e dela me informar sobre o procedimento (sim, repito: é doloroso!) e mesmo assim eu decidir avançar com a minha decisão. Odiaria que ela mas tivesse furado recém-nascida (ou tatuado, ou feito uma mutilação genital ou decidido o que quer relativo ao meu corpo de forma permanente e por motivos que não de saúde), pelo que, decidi que a Ana furaria as orelhas quando manifestasse vontade própria para o fazer, com um nível de maturidade suficiente para o decidir. Tal como aconteceu comigo.
Queria ter a certeza de que já tinha alguma maturidade imunológica para minimizar as possibilidades de infecção, de que tinha responsabilidade suficiente para o compromisso de rodar autonomamente os brincos todos os dias de forma a não os deixar colar e consciência para acusar dor caso alguma coisa corresse mal.
E, especialmente, queria que fosse ela a manifestar o desejo de furar as orelhas com razões sustentadas e válidas. Esperaria o tempo que tivesse que esperar e sempre estive preparada para a eventualidade dela, inclusive, nunca querer vir a furar as orelhas. Tudo bem: her body, her rules.
Veredicto:
Não furámos as orelhas à Ana recém-nascida e eu acabei por pesquisar mais sobre o assunto. Percebi que furar as orelhas a um bebé tem como único propósito satisfazer a vaidade dos adultos seus cuidadores. E não me fez sentido adoptar esta prática como forma cultural e social de exteriorizar o sexo biológico da bebé. Passei a partilhar da posição de acreditar que era uma forma de mutilação do corpo da criança, sem autorização desta e assumi que a miúda só furaria as orelhas depois dos 18 anos, quando tivesse capacidade de decisão. Nunca mais pensei no assunto.
Há uns meses que a Ana vem falando no assunto. A comparação com os pares é significativa nesta fase e muitas meninas da escola dela já têm as orelhas furadas e brincos divertidos, pelo que, estes constituem um acessório de afirmação pessoal, de símbolo de pertença ao grupo, feminilidade e estética. Por outro lado, a minha mulher usa brincos e a Ana está naquela fase em que se começa a identificar muito com a mãe, a querer imitá-la e a fazerem o "clube das meninas". Ultimamente este era um tema recorrente e nós fomos sempre discutindo o assunto com ela: "olha que dói!", "tens a certeza?","sabes que não precisas de furar só porque as outras meninas têm, certo?!", "sabes que há brincos de colar? E de mola?" e por aí fora.
Hoje acordou para aí virada e, aos cinco anos, oito meses e onze dias furou, estoicamente, as orelhas. Chorou uns 10 segundos. Dez segundos, literalmente .Antes de saltar da cadeira da loja e ir escolher uma variedade de brincos obscena. Já eu desmaiei. E não estou a falar no sentido figurado.
Pai sofre.
